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Ainda a Opel da Azambuja, ou uma inevitabilidade

No texto de há 15 dias elogiei a atitude dos trabalhadores da AutoEuropa no final de 2003, e mostrei-me bastante crítico com o que tem vindo a suceder na Opel da Azambuja.

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Não tinha intenção de voltar, hoje, ao mesmo tema, mas alguns acontecimentos e factos que entretanto sucederam levaram a que tivesse decidido regressar a ele.

Logo no dia seguinte à publicação do meu texto, o ministro da Economia e Inovação, Manuel Pinho, brandindo uma fotocópia do artigo, acusou-me, na Assembleia da República (sem que eu estivesse presente, e em directo para todo o País, através do Canal Parlamento), de ser um «político de direita, porque culpava os trabalhadores» pelo (provável) fecho da unidade produtiva da Azambuja – ao passo que ele (o Ministro), era claramente «um político de esquerda, porque não culpava os trabalhadores».

Entretanto, no «Expresso» do fim-de-semana que passou, Daniel Amaral, na sua coluna «A Força dos Números», abordou este tema com argumentos que considero muito válidos.

Pelo meio, soube-se que a General Motors (GM) Europa tinha chegado a acordo com o Fórum de Empregados Europeus para negociações sobre a fábrica da Azambuja; e surgiram informações de que se encontra em cima da mesa a possibilidade de aliança da GM com a Renault-Nissan (relembre-se que em 2005 a GM registou prejuízos de cerca de USD 10 mil milhões).

Comecemos pela acusação de Manuel Pinho. Conheço o ministro da Economia há mais de 20 anos: fui seu aluno, fui seu assistente, integrei a sua equipa no BES, e, naturalmente, não só o conheço bem como nutro por ele, um sentimento de amizade. E, claro, também conheço bem o seu pensamento económico. Não sei, perante o mundo globalizado, concorrencial e competitivo em que hoje vivemos, o que é «ser de esquerda» ou «ser de direita». Na parte que me toca, considero-me liberal em termos económicos, tentando perceber o melhor possível as tendências mundiais, e de que forma uma economia pequena e aberta como Portugal, e com as limitações e dificuldades que nos caracterizam, melhor se pode posicionar (em diversos domínios) para poder dar a volta à situação (preocupante) que vivemos.

Creio que Manuel Pinho não é menos liberal nem menos adepto do mercado do que eu – embora integre um Governo (dito) socialista. Bastaria, aliás, consultar todos os textos que escreveu no final dos anos 90 e no início desta década (a maior parte dos quais no «Expresso», e que se encontram disponíveis na internet), para dissipar quaisquer eventuais dúvidas? E, portanto, entre «esquerda» e «direita», creio que estamos conversados.

No entanto, confesso que não esperava que o ministro da Economia e Inovação – que, como já referi, conheço bem – usasse, perante o meu artigo, uma argumentação puramente demagógica. Que talvez lhe tenha dado jeito, mas é pouco séria. Assim, e para que conste, não retiro uma vírgula ao que escrevi há quinze dias. Mais acrescento que aquele texto não tinha como objectivo culpar os trabalhadores da Opel da Azambuja (o que seria despropositado); tão só comparar uma atitude com outra, e explicar por que considero uma (a dos trabalhadores da AutoEuropa) bem mais adequada aos tempos em que vivemos.

Não tenho dúvidas de que existem várias razões para a situação a que se chegou na Azambuja, e que a própria Administração da GM tem culpas no cartório – sobretudo por se ter deixado aprisionar numa lógica de mera fábrica de montagem, com apenas 21 dos 511 fornecedores a serem nacionais, e não tendo criado, portanto, um cluster da indústria automóvel (ao contrário do que sucede na AutoEuropa). Mas tudo isto já foi por mim escalpelizado no texto anterior. No entanto, no último Sábado, no «Expresso», o economista Daniel Amaral punha, uma vez mais, o «dedo na ferida» no que toca à menor competitividade da nossa economia face a Espanha e à Polónia, países onde também existem fábricas da GM. O que acontece também na área dos custos do trabalho. Os dados do quadro em anexo não mentem: por exemplo, face a Espanha, os nossos custos do trabalho são mais baixos; simplesmente, como a nossa produtividade é ainda mais desfavorável, quando relacionamos os dois conceitos – obtendo os custos unitários do trabalho –, concluí-mos que eles são já favoráveis (desde 2005) ao país vizinho (os custos unitários do trabalho, em 2006, representam 47.6% do produto no nosso país, contra 46.6% em Espanha, e 39.2% na Polónia). Isto, claro, em termos médios nacionais porque, como também afirma Daniel Amaral, a percepção que existe é que na indústria automóvel esta diferença é ainda maior.

E, olhando para a realidade do quadro, tenho poucas dúvidas de que a vantagem salarial da Polónia (e de outros países da Europa de Leste, como a República Checa, a Hungria ou a Eslováquia), associada à melhor qualificação dos recursos humanos e a outras características mais competitivas (e que muito já tenho abordado em textos anteriores), será decisiva no confronto com a Europa Ocidental (e não apenas com Portugal?).

Finalmente, as notícias que entretanto se conheceram sobre possíveis tentativas de saída/solução quer para a Azambuja, quer para a GM em geral, permitem-nos ter ainda esperança (embora muito ténue) de que o fim da unidade produtiva portuguesa possa não vir a estar para breve.

Mas, em todo este contexto, não posso deixar de voltar a assinalar, como o fiz no texto anterior, que no mundo globalizado e concorrencial em que vivemos, o capital move-se sem sentimentalismos para onde a rendibilidade é maior. Ora, infelizmente, somos mesmo pouco competitivos e não apresentamos vantagens, entre outras, na qualificação de recursos humanos, na legislação laboral, na burocracia e em termos fiscais – e nem se vislumbra que venhamos a registar grandes progressos nos tempos mais próximos. Por isso, na área salarial, e por muito duro que tal possa parecer, a solução só pode passar por (i) assegurar o mesmo trabalho ganhando menos; ou (ii) ganhar o mesmo trabalhando mais. Quer os sindicatos queiram, quer não; quer o Ministro da Economia e Inovação o reconheça ou não. Não se trata de ser «de esquerda» ou «de direita». Trata-se, isso sim, de uma inevitabilidade.

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