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Avelino de Jesus 16 de Fevereiro de 2015 às 00:01

Algo de novo na Grécia?

As facilidades obtidas pelo governo grego, em tão elevado montante e durante tanto tempo, justificariam outros resultados, tanto no plano económico como no social.Nota: Este artigo está acessível, nas primeiras horas, apenas para assinantes do Negócios Primeiro.

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To be perfectly frank, it was a mistake to accept Greece.

Greece simply wasn't ready. Greece is basically an Oriental country.

Helmut, I recall that you expressed skepticism before Greece was accepted into the European Community in 1981. You were wiser than me.

The Euro Group cannot be allowed to expand endlessly.

 

Giscard d'Estaing em diálogo com Helmud Schmidt em Der Spiegel, 11-9-2012

 

No presente episódio, como sempre em anteriores ocasiões, a Grécia vai obter novas concessões, voltando a distorcer o funcionamento das instituições comunitárias. Embora haja agora um elemento aparentemente novo - um governo de extrema esquerda - o que conta muito é a continuidade e pouco a novidade.

 

Primeiro foi a adesão em 1981 à CEE, anormalmente antes de Portugal e da Espanha, graças ao apadrinhamento de Giscard d'Estaing. Segundo, as ajudas excepcionalmente generosas pré e pós-adesão. Terceiro, a entrada forçada no euro. Quarto, o alívio artificial da dívida depois de 2010. Quarto, a brutal injecção de dinheiro do BCE, ainda agora acabada de ampliar com o reforço, para os 65 biliões de euros, da facilidade ELA.

 

A conversa do país oprimido por um excesso de austeridade, imposta de fora e responsável por uma catástrofe humana não tem consistência.

 

Os excessos e imprevidências cometidos antes da crise por sucessivos governos gregos, democraticamente eleitos, são os responsáveis. A crise grega mais do que qualquer outra é de excesso de gasto público.

 

Porém, os gastos públicos não foram dirigidos à construção do estado social, mas destinados a alimentar uma estrutura social arcaica - a verdadeira responsável pela situação humana desastrosa.

 

A solução preconizada pelos defensores do alívio da austeridade levará à perpetuação daquelas estruturas e à renúncia em induzir a verdadeira solução para o crescimento: a dinamização das exportações. Esta renúncia, consistentemente prosseguida pelos anteriores governos e que o actual não parece desdenhar, é verdadeiramente lamentável.

 

Com os seus mercados tradicionais a crescer e os salários fortemente reduzidos, as exportações gregas não crescem.

 

Em preços constantes de 2010, em 2008 as exportações da Grécia eram de 58,9 biliões de euros e as portuguesas 54,7 biliões de euros. Em 2014 as posições estão invertidas: as gregas são 55,8 biliões de euros e as portuguesas 65,5 biliões de euros. Por todo o lado (veja-se a tabela anexa) as exportações estão, após o tombo pós-crise, em franca recuperação. A Grécia é das poucas excepções.

 

De facto, as reformas estruturais desenhadas no papel pela Troika não foram implementadas. Continuam as dificuldades burocráticas nas exportações. O controlo do Estado e das corporações parasitárias sobre a economia continua forte, em particular as restrições no mercado de produtos que se estendem à exportação.

 

Apesar da elevada despesa pública, não conseguiram construir um Estado social decente. Por exemplo, ainda andam às voltas para implementar o elementar rendimento mínimo.

 

O problema grego não está na governança das instituições europeias, mas na grega.

 

As facilidades obtidas pelo governo grego, em tão elevado montante e durante tanto tempo, justificariam outros resultados, tanto no plano económico como no social.

 

A verdadeira falha da UE está em não ter conseguido impor aos governos gregos efectivas condicionalidades na concessão das ajudas.

 

Economista e professor do ISEG

 

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