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Eva Gaspar egaspar@negocios.pt 14 de Novembro de 2012 às 23:30

Angela, Isabel e a aspirina

A vontade de arranjar bodes expiatórios e a de encarar a realidade com expectativas destorcidas serão ainda mais comuns, injustas e perversas em tempos de crise e de muita gritaria mediática. Angela Merkel e Isabel Jonet têm sido vítimas desta circunstância – e possivelmente de muita ignorância e má fé, mas deixe-se isso de lado.

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Quanto a Isabel Jonet, muito já se escreveu sobre a coerência de uma mulher que tem feito um trabalho notável de mobilização colectiva da generosidade dos portugueses à frente do Banco Alimentar.

Acrescentaria apenas para quem a quer ver desaparecer do mapa por estar há vinte anos a lutar contra a pobreza e esta persistir, que seria menos ridículo fazer uma petição pública contra a aspirina por prometer há muito mais tempo fazer desaparecer a dor de cabeça – comprovadamente sem sucesso.

Tal como Jonet não é responsável pela pobreza nem pela sua erradicação, também Angela Merkel não é responsável pela situação de endividamento excessivo português, nem sequer pela sua eliminação. No que a chanceler está envolvida até ao pescoço é num processo paliativo – como paliativas são as intenções da aspirina e do Banco Alimentar - que desejavelmente permitirá a redução da dívida (por Portugal e pelos portugueses) com menos dor.

Pode-se perfeitamente argumentar que não nos está a ser dada dose suficiente de aspirina. Mas também é justo lembrar que o tratamento não está a ser administrado em lado algum como a Alemanha queria – nem por quem a Alemanha queria.

Se fosse a Alemanha sozinha a decidir, não teria havido troikas, nem empréstimos conjuntos, que obrigaram a Europa a fazer-se de bombeiro enquanto a casa ardia. Teria sido o FMI (de que, de resto, a Alemanha é o terceiro maior accionista, depois de Estados Unidos e Japão) a tratar, desde logo, do caso grego – e a "solo".

Se fosse como a Alemanha queria, jamais o BCE se teria envolvido na compra de dívida soberana no mercado secundário.

A memória é compreensivelmente curta quando tanto acontece em tão pouco tempo. Mas antes de se darem muito bem Angela Merkel deu-se muito mal com Nicolas Sarkozy: foi sempre a França que se bateu para que as instituições europeias assumissem as rédeas nos programas de assistência externa, primeiro à Grécia, depois à Irlanda e Portugal.
Não faço a menor ideia se o tratamento alemão "puro e duro" teria resultado melhor ou ainda pior. Mas o que é fácil constatar é que a cura do euro, como o próprio euro, amarrou a Alemanha ainda mais ao seu destino europeu. Dependendo do ponto de vista, agradeça-se à França. Eu agradeço. E espero que os franceses não venham a ter de agradecer ainda mais.

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