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Sofia Galvão 31 de Dezembro de 2003 às 13:59

Ano novo... vida nova?

Na verdade, é insensato crer que as elites e a sociedade civil permaneçam, eternamente, adormecidas. O mal-estar instalou-se e o imperativo da acção política impor-se-á.

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A natureza humana tem a extraordinária capacidade de, a propósito de tudo, reinventar pretextos para a esperança. Com o anúncio de um novo ano, tal manifesta-se na mais absoluta plenitude. Esse cíclico recomeço é, sempre, uma oportunidade renovada.

Feito o balanço do ano que passa e, com ele, inevitavelmente, da vida que avança, o tempo novo que aí vem devolve-nos a fé no futuro. Genuinamente, todos os anos, voltamos a crer na possibilidade dos sonhos. E os desejos de “bom ano” são a expressão verdadeira de uma imensa vontade de concretização.

Tantas vezes adiada, por força dos caprichos da vida ou, mais frequentemente, da nossa impotência ou resignação. Esse característico estado de alma transcende a esfera da felicidade pessoal e, em termos muito semelhantes, abarca a nossa relação com a vida colectiva.

Todos os anos, com as dozes badaladas e as doze passas, repudiamos a guerra, a fome, a violência, a injustiça social, a xenofobia, o fundamentalismo, a corrupção, o fanatismo, a ditadura. E, todos os anos, acreditamos num mundo capaz de lhes pôr cobro.

À escala do planeta ou à escala do bairro, o pior é que a atitude é a mesma. Presos no frenesim dos nossos pequenos quotidianos, vamos remetendo a responsabilidade da mudança para o plano institucional. E não nos envolvemos nessa exigência.

Demitimo-nos de intervir. Assoberbados pelos nossos problemas. Acomodados nos nossos cantinhos - apesar de tudo, confortáveis. E, assim, vamos deixar para trás um ano difícil. Cientes de que os políticos, os nossos e os outros, foram incapazes de fazer a diferença necessária.

Internacionalmente, 2003 não deixará saudades. No Iraque, uma guerra que ninguém entendeu e que, meses depois de finda, deixa ainda um rasto diário de morte. No Médio Oriente, um conflito sem solução e a latência de uma intolerância explosiva.

Na Europa, uma caminhada abortada pela inépcia dos responsáveis, tornando ostensiva a actual crise de lideranças. Nos Estados Unidos, um ‘cowboy’ com tiques de dono do mundo, perigosíssimo como todos os alarves poderosos.

Pelo percurso, dois simbólicos e pesados sacrifícios - Anna Lindt, testemunho do desafio imenso que subjaz ao aprofundamento da união, e Sérgio Vieira de Mello, militante convicto da paz na sua dupla dimensão de imperativo moral e político. Como pano-de-fundo, a novíssima economia global, com a sua genética incapacidade de esconder fragilidades e desequilíbrios.

Milhões e milhões de pessoas não superam o limiar da pobreza. Milhões e milhões com fome e entregues à doença. Milhões e milhões sem tecto, sem ensino, sem cultura. Vítimas das implacáveis regras da distribuição comercial. Nesse mundo que, longe delas, destrói excedentes. Nesse mundo que, longe delas, cria redes sofisticadas para produzir e rentabilizar o supérfluo.

Entre nós, 2003 também não será ano de boa memória. Crise económica declarada, com falências e desemprego a afectar a vida de muitos milhares de famílias. Uma política financeira obstinada que, além de duríssima nas suas implicações, parece não conseguir transpor o teste dos números.

Um sistema fiscal ineficaz, pouco transparente e alvo de todas as suspeições. Uma crónica falta de autoridade, expressa nos vários dramas que perseguem o ministério da administração interna. Problemas óbvios na justiça, com uma total ausência de contenção e de sentido das circunstâncias na gestão e acompanhamento dos casos mais mediáticos.

Insucessos recorrentes na Saúde e na Educação, ficando-se muito aquém do prometido e, sobretudo, do exigível. Hectares e hectares de floresta ardida, num inferno de irresponsabilidades e de ineficiências que persistem por explicar. Uma reforma da administração pública apenas anunciada...

Mas, muito mais grave do que o pontual inêxito desta ou daquela política, é a certeza da deriva que se instalou. O país segue sem rumo. Sem destino. Sem razão. E, aparentemente, condescendendo. Dá-se por adquirido que o governo é débil. Como se não bastasse, aceita-se, sem contestação, que a oposição seja ainda mais fraca.

Para além disso, assume-se que não há elites. Finalmente, reconhece-se que a sociedade civil, enquanto tal, pura e simplesmente, não existe. Neste contexto, o estado do país é tido como algo inevitável. Contra o qual nada se pode e, portanto, contra o qual nada se fará.

O palco político transformou-se, assim, numa realidade profundamente desinteressante. Já não está em causa a conquista do poder, dirigida à prossecução de um certo projecto de sociedade, diverso de outros, numa luta comprometida com valores, referências e métodos.

Pelo contrário, hoje, o modelo assenta na necessidade de gestão do “status quo” e a regra da alternância, reportada a nomes mais do que a ideias, cumpre umdesiderato de evolução na continuidade. Da forma mais lamentável, o sistema converteu-se na melhor garantia do próprio sistema.

Que é como quem diz, daqueles que, em cada momento, são o sistema. Os desafios que aí vêm e, desde logo, os que o ano de 2004 nos torna inadiáveis obrigam, contudo, a muito melhor. A política está num estado de absoluta indigência e isso mesmo é reconhecido por toda a gente, em todo o lado.

Sem grandes manifestações, o desalento que atravessa este povo dá bem a medida de como é outra a sua ambição. As respostas que urgem passam pela proposta de um caminho. Não basta dizer que “o pior já passou”. Ou que se está “confiante no futuro”. Ou que se avizinha um “tempo de recuperação”...

É preciso muito mais para que as pessoas possam acreditar. Na verdade, é insensato crer que as elites e a sociedade civil permaneçam, eternamente, adormecidas.

O mal-estar instalou-se e o imperativo da acção política impor-se-á.

Nessa altura, o Novo Ano permitirá, enfim, para além dos voluntarismos de cada um, uma esperança objectiva.

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