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Teresa Anjinho 16 de Novembro de 2010 às 12:33

Apareça alguém que endireite tudo isto

Por toda a parte, ouve-se falar da crise, da economia, do governo ou desgoverno do nosso país.

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Muito se diz, muito se fala, mas pouco se interioriza, banalizando o que, na minha opinião, é o cerne da questão: as pessoas.

O problema económico, no seu conjunto, é inseparável do problema humano. Não tenho dúvidas em dizer que considero o factor humano o fundamento, o fim e o sujeito de todas as instituições e de todas as reformas. Para alcançar certos fins, não basta o cumprimento formal de todos planos, ou seja, o erguer das estruturas adequadas e o desenhar dos processos necessários, as boas intenções. As reformas das estruturas valem sobretudo pelo espírito que as anima.

Toda actuação e toda a reforma deve, assim, resultar de um sistema integrado de esforços, devidamente planeados e reconhecidos, de modo a que a participação de cada cidadão e cidadã seja acompanhada, e mesmo incentivada, por um conhecimento prévio dos direitos e das obrigações de cada um enquanto partes de um todo, conscientes de que no seu microcosmo de actuação concorrem com o esforço individual para a realização de um esforço colectivo, sem com isso eliminar o desenvolvimento da sua personalidade e interesses. Estaríamos assim perante a fusão da personalidade individual com a personalidade colectiva e institucional. Estaríamos assim em condições de compreender o apregoado apelo à unidade, tantas vezes confundida com uniformidade, como se de uma 'estandardização' da existência se tratasse, ignorando claramente que uma é a negação da outra. A produtividade da participação está precisamente na variação da unidade e da diversidade, do privado e do público, assumindo o que nos separa como fonte de diálogo construtivo num espírito de cooperação em prol de um bem comum.

É da falta de diálogo e da proliferação dos monólogos, mais ou menos esclarecedores, que emerge um desconcertante, mas cada vez mais frequente, grito colectivo: "apareça alguém que endireite tudo isto."

Toda a obra a executar exige a cooperação de todos os que dela vão beneficiar. As actuações políticas recentes, ao invés do diálogo, enveredaram por um tortuoso, e por vezes incompreensível, caminho de negociação, cujos salutares objectivos foram claramente ultrapassados por um privilegiar da forma sobre o conteúdo, emergindo aos olhos da opinião pública como considerações unilaterais e quase egoístas dos problemas, numa visão estreita das vias e meios para engrandecimento e influência dos seus intervenientes. O resultado pode ser muito negativo. Se é importante existir unidade na base, é fundamental existir unidade no topo.

Estou convencida de que dispomos dos recursos humanos e materiais necessários para enfrentar as actuais adversidades, mas também estou convencida de que sem um princípio de adesão de toda a população, sem a existência de um novo contrato social, teremos planos sem eficácia, esforços sem objectivos e sacrifícios sem progresso. Precisamos de uma nova atitude de espírito e de uma visão mais ampla. Precisamos da integração de todos numa verdadeira vida nacional.


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Doutoranda e investigadora da FDUNL
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