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Negócios negocios@negocios.pt 13 de Maio de 2002 às 18:49

Artur Fernandes: Já despediu o seu chefe?

Um chefe que não inspira, não define objectivos e não apoia os subordinados dificilmente recolhe o apoio dos seus pares quando e se o propuser. E a organização não apoia um chefe que foi despedido pelos subordinados. É um falhado.

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Se calhar já despediu o seu chefe e não deu por isso!

Ou então já foi despedido pelos seus subordinados. Não sabe? Eu ajudo-o a descobrir.

Na organização, existe uma relação subtil de cliente/fornecedor entre os chefes e os subordinados. Os chefes fornecem apoio e os subordinados dão em troca resultados. Os chefes fornecem objectivos inspiradores e os subordinados pagam pondo esses à frente dos objectivos pessoais. Os chefes dão inspiração e recebem tarefas cumpridas a tempo e com qualidade.

Se o chefe não apoia, não define objectivos e não inspira os seus subordinados, não está a cumprir com o que estes esperam dele e o despedimento surge com toda a naturalidade. Afinal é o mesmo que todos fazemos, enquanto clientes, quando os fornecedores deixam de nos fornecer em tempo e qualidade. Como é que os subordinados aplicam essa prática em relação ao seu chefe/fornecedor? De uma de duas maneiras: não cumprindo as tarefas que lhe são delegadas ou desistindo.

No perspectiva da organização, o bom chefe é aquele que consegue que os seus subordinados façam as tarefas que lhes estão atribuídas, em tempo e com qualidade. Se o subordinado deixa de cumprir com as suas tarefas, o chefe deixa de ser tal, o que quer dizer, em termos práticos, que foi despedido. Pode continuar na folha de salário e ir todos os dias ao seu gabinete, mas já não conta.

Um subordinado que não cumpre com as suas tarefas é um problema, mas se pensarmos que o problema é com todos os subordinados do chefe que não cumpre com a sua obrigação de fornecedor, então vemos que o problema é maior do que pode parecer. É da organização porque está a ter os custos sem ter os proveitos e é do chefe porque a sua carreira está a ser paulatinamente destruída. Porque quem faz a carreira de um chefe são os seus subordinados. Pelo menos em organizações saudáveis.

Quando o subordinado desiste é mais complicado. A desistência pode manifestar-se de várias formas. Uma delas, a mais perigosa, acontece quando o subordinado se desinteressa da forma como cumpre as suas tarefas. Tanto lhe faz se as coisas estão bem ou mal feitas em termos de tempo ou qualidade. O cliente passa a ser um chato que ele tem que aturar. E não lhe interessa se o cliente abandona o serviço que a organização presta, pois ele também já despediu o chefe pelas mesmas razões: não cumpriu com as suas obrigações. O subordinado que desistiu, tem uma frase na sua cabeça que, de forma recorrente, o assalta: «Não te preocupes em fazer bem. Ganhas o mesmo faças bem ou mal!». E tem razão.

Para complicar tudo, é mais fácil ao subordinado despedir o chefe do que o contrário. O chefe vai ter muita dificuldade em despedir o subordinado, não só porque a lei não o vai permitir, como porque a organização não o vai apoiar. Um chefe que não inspira, não define objectivos e não apoia os subordinados, dificilmente recolhe o apoio dos seus pares quando e se o propuser. E a organização não apoia um chefe que foi despedido pelos subordinados, porque não atinge os objectivos nem cumpre em tempo e qualidade com as suas obrigações. É um falhado.

Ora, se os subordinados/clientes podem despedir o chefe/fornecedor e destruir-lhe a carreira, o melhor é começar a ouvi-los e a tratá-los bem.

O segredo para que este risco não ocorra está na comunicação aberta e sem receios. Mas não basta estabelecer canais de comunicação fáceis entre fornecedores e clientes, há que prestar atenção aos anseios e preocupações destes e agir em conformidade. Mas não deveremos colocar sempre os interesses da organização em primeiro lugar? Mas os interesses da organização passam precisamente por clientes e colaboradores satisfeitos. Já se concluiu que isso é melhor para o negócio. Produzimos mais e melhor quando estamos motivados e satisfeitos. É da natureza humana.

E não só.


Recordo uma visita que efectuei no princípio dos anos 90 a uma vacaria perto de Santarém. Para minha surpresa, os estábulos e salas de ordenha estavam equipados com instalações sonoras debitando música sinfónica. Ao ouvir-me manifestar surpresa pelo facto, o dono da vacaria confirmou-me que tinha efectuado esse investimento porque as vacas produziam mais leite. Parece que a música as relaxava e o leite manava em mais quantidade. Uma das pessoas que me acompanhava na visita, comentou de imediato:

«A sorte das vacas é que dão mais leite quando estão relaxadas e felizes. Porque se descobrissem que davam mais leite a levar com uma chibata, estas tinham um chibateiro instalado atrás de cada uma!»

Peço desculpa pela crueza da comparação, mas ainda há chefes que acreditam que a técnica da chibata é mais eficiente. Depois admiram-se de os subordinados os despedirem!


Artur Fernandes

Consultor

Comentários para o autor para artur_fernandes@netcabo.pt

Artigo publicado no Jornal de Negócios – suplemento Negócios & Estratégia

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