Manuel  Falcão
Manuel Falcão 27 de setembro de 2019 às 10:40

As campanhas mobilizam eleitores novos?

Qual o ponto comum entre as igrejas e os debates na televisão? Ambos perdem audiência. Não há novos fiéis. O resultado de audiências do debate eleitoral entre os actuais seis partidos com assento no Parlamento fala por si.
Back to basics
"Não sei qual é a chave para o sucesso, mas sei que a chave para o falhanço é querer agradar a toda a gente."
Bill Cosby

As campanhas mobilizam eleitores novos?
Qual o ponto comum entre as igrejas e os debates na televisão? Ambos perdem audiência. Não há novos fiéis. O resultado de audiências do debate eleitoral entre os actuais seis partidos com assento no Parlamento fala por si. Para que conste, no mesmo dia do debate e antes dele, a RTP1 passou a transmissão do Best Fifa Football Awards, que teve uma média de 889 mil espectadores. Logo a seguir, o debate dos seis partidos parlamentares teve uma média de apenas 424 mil espectadores, menos de metade. À mesma hora do debate, a SIC passava do milhão e cem mil espectadores com as telenovelas "Nazaré" e "Golpe da Sorte", e a TVI teve 722 mil a ver a novela "Na Corda Bamba". Continuo sem perceber porque é que há partidos que insistem em defender este modelo de debates, que só convencem quem está já convencido. Na realidade, naquele debate não houve ideias novas, houve apenas as picardias do costume entre os protagonistas habituais. Este ano, a coisa parece aliás ainda mais confusa - dos seis implicados, três confessam-se de inspiração social-democrata em várias variantes: o PSD, o PS e o Bloco de Esquerda. Esta estranha convergência é a única novidade da campanha dos suspeitos do costume. O resto é de uma pobreza confrangedora, em que abundam as promessas e a falta de balanço sobre o cumprimento das que fizeram há quatro anos e, mais grave ainda, sobre o triste balanço da decadência de princípios de deputados e Parlamento na legislatura que agora finda.

Semanada

A Comissão Nacional de Protecção de Dados decidiu que não irá aplicar nove artigos da lei aprovada na Assembleia da República que adapta, à realidade portuguesa, o novo Regulamento Geral de Protecção de Dados (RGPD), justificando que os mesmos violam precisamente o diploma original da União Europeia o roubo das armas em Tancos entrou na campanha eleitoral e quem lhe deu a chave de entrada começou a disparar em todas as direcções oito em cada dez crianças não têm vagas em creches; cinco associações de doentes oncológicos afirmaram conjuntamente que existe "um agravamento dos cuidados de saúde" nesta área e um "enorme alargamento do prazo para a realização dos exames" um terço das vagas de ginecologia e obstetrícia ficaram vazias em Lisboa o dinheiro gasto em horas extras no SNS em 2018 daria para contratar 7.500 profissionais de saúde, segundo o presidente da Associação dos Administradores Hospitalares o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos considerou que os tribunais portugueses violaram em duas sentenças, proferidas em 2012 e 2013, o direito à liberdade de expressão dos cidadãos não são conhecidas medidas tomadas sobre os juízes autores dessas limitações à liberdade de expressão o INE reviu as contas, com números mais favoráveis para o Governo, dias antes do início da campanha eleitoral, proporcionando uma subida das pensões para além da inflação; graças a outra curiosa coincidência temporal, a Procuradoria-Geral da República divulgou, na semana de arranque da campanha, o seu parecer sobre negócios de familiares de governantes que afirma não haver incompatibilidade em nada do sucedido.

Dixit
"Porque é que não há uma estratégia para combater a corrupção se ela está na boca de toda a gente? Porque é que um país com 200 km de largura tem o interior ao abandono?"
João Miguel Tavares

Uma festa romana
Os escritores novos têm um grande ponto comum com os partidos recentes que concorrem às legislativas pela primeira vez: têm uma grande dificuldade em vingar e dar-se a conhecer. Lembrei-me desta comparação ao pegar em "Saturnália", o romance estreia de André Fontes, publicado pela Guerra & Paz. Comecemos pelo princípio. A saturnália era uma festividade da Roma Antiga em honra ao deus Saturno, que ocorria a 17 de Dezembro e que incluía banquetes e festividades numa atmosfera que derrubava as normas sociais romanas. Catulo, o poeta, chamava-lhe "o melhor dos dias". António Fausto é a personagem principal deste romance e assume-se como a personificação dos jovens do século XXI, os intelectualmente mais bem preparados para a vida, mas emocional e financeiramente mais instáveis. António Fausto encarna o desejo dos jovens de quererem ser grandes e terem uma vida melhor que a dos pais. Mas, ao mesmo tempo que tem em si os maiores sonhos, António Fausto tem também os maiores receios: crescer e não sair da banalidade. E, no entanto, este não é um livro banal - é provocatório. O seu editor, Manuel S. Fonseca, fez um bom resumo das razões que o levaram a editá-lo: "Se não fosse imoral, não queríamos! Mas o primeiro romance de André Fontes, ‘Saturnália’, é imoralíssimo e é também o primeiro ‘romance millennial’ da literatura portuguesa. O romance? Somos nós, é o nosso retrato: bem-vindos a esta Saturnália moderna, carregada de erotismo, boémia e angústias de uma nova geração, num mundo igualmente novo. Precária em erário, mas abundante em avidez."

A memória do mar
Até 30 de Novembro, poderão ver na Galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão, 18), uma exposição de inéditos de Pedro Cabrita Reis, "Os Desenhos da Maré Baixa". Trata-se de um conjunto de obras que evocam as tonalidades do mar, numa referência a um dos locais de eleição do artista. Muito curiosamente, estes desenhos, que sugerem quer as ondas quer a espuma que elas deixam na areia, são uma referência a memórias visuais e, como tem sido corrente na obra de Cabrita Reis, também um olhar sobre si próprio, os seus gostos, as suas fixações - como já antes foram desenhos de bosques, auto-retratos ou cenas do seu quotidiano. Outra sugestão: até 7 de Outubro, ainda pode ver na Gulbenkian a exposição "Sarah Affonso E A Arte Popular do Minho", que ocorre por ocasião do 120.º aniversário do nascimento da artista, uma pintora portuguesa modernista cuja obra tem sido muito pouco investigada e exposta, frequentemente ofuscada pelo facto de ser casada com Almada Negreiros. Esta exposição centra-se na particular relação de Sarah Affonso com a arte e a cultura popular do Minho, onde passou a sua infância e adolescência. A exposição apresenta, em paralelo, as obras de Sarah Affonso com os objetos cerâmicos, têxteis, de ourivesaria, que formam parte do léxico visual que a inspirou e onde se incluem empréstimos de museus e colecionadores portugueses. Mais sugestões - a exposição Acervo Aberto, de Bettina Vaz Guimarães na Galeria Cisterna (Rua António Maria Cardoso 27).Na Galeria Vera Cortês (Rua João Saraiva 16-1.º), Catarina Dias mostra a sua pintura e escultura na exposição Mamute, até 2 de Novembro.

A questão da sandes
Para um café ou snack bar português, o que é uma sanduíche? A resposta é uma carcaça que evoca a borracha, muito levemente barrada com manteiga mole, que muitas vezes caminha para rançosa, uma fatia de fiambre - quanto mais fina e transparente melhor - ou uma fatia de queijo tipo flamengo do mais barato que exista. Resumo: uma porcaria que não interessa a ninguém. Nas zonas de restauração de alguns centros comerciais ou em alguns novos espaços, começam a aparecer boas sanduíches, bem preparadas, com pão estaladiço e recheio condigno. Os estabelecimentos Copenhagen Coffee Lab, do Príncipe Real e de Alcântara, são boas referências na variedade de sandes tradicionais, nas sandes abertas, e nas tostas, com possibilidade de escolha da qualidade de pão pretendida nalguns casos. O recheio é mais abundante que o normal, sem ser no entanto generoso, e há bom senso nas misturas e combinações propostas. Mas, sinceramente, gostava de conhecer um estabelecimento que se dedicasse a explorar a potencialidade de bom pão fresco com enchidos nacionais pouco usados (chouriço de boa qualidade, paio do lombo, paiola de porco preto, salpicão, morcela e, porque não, farinheira) combinados com queijos como de São Miguel, o de cabra atabafado, ou o serra curado. O pão havia de ser salpicado com bom azeite, combinações possíveis com mel ou doces tradicionais. Carcaça de borracha seria proibida e pão de forma de dois centímetros de espessura e consistência mole idem. E, cada vez mais, há por aí muito bom pão para iniciarmos uma contenda com essa maravilha americana que é a sanduíche de pastrami.

Arco da velha
O cortejo da queima das fitas da Universidade de Coimbra deixou nas ruas 25 toneladas de resíduos e detritos vários - isto na mesma universidade que não quer carne de vaca nas cantinas por razões ambientais.

Sete momentos de memória
"Solo" é o primeiro álbum póstumo de Bernardo Sassetti, de um conjunto de nove que irão saindo gradualmente e que registam actuações ao vivo e sessões de gravação do músico. Este "Solo" inclui-se nesta última categoria e recupera sete temas do próprio Sassetti gravados em 2005 num piano Steinway do Teatro Micaelense, piano que o músico apreciava particularmente. Sassetti deslocou-se para uma série de concertos naquela sala açoriana, mas durante três dias esteve sozinho com o técnico e produtor Nelson Carvalho e o afinador do piano. É das gravações solitárias feitas nesses três dias que nasceu este disco. Na altura, o pianista fez uma pré-produção do material gravado, tendo agora Nelson Carvalho e Inês Laginha feito uma segunda seleção, escolhendo apenas os temas mais inéditos, que não estão fixados em outras gravações. "Solo" inaugura uma série de nove álbuns de material inédito que a Casa Bernardo Sassetti quer editar nos próximos tempos, cumprindo uma das missões desta associação cultural criada em setembro de 2012, quatro meses depois de Bernardo Sassetti ter morrido, aos 41 anos. O segundo disco desta série, a editar em 2020, incluirá temas que Bernardo Sassetti compôs para o espetáculo "A Menina do Mar", inspirado no conto de Sophia de Mello Breyner Andresen. O mais surpreendente neste "Solo" é conseguir, nos sete temas que inclui nos seus cerca de 35 minutos de música, mostrar toda a subtileza e intimismo de Sassetti, sem exuberâncias, apenas com um enorme sentimento musical.


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