Jean Pisani-Ferry
Jean Pisani-Ferry 20 de fevereiro de 2018 às 14:00

As consequências económicas internacionais do Sr. Trump

Se o primeiro ano de Trump na presidência é uma indicação do que está para vir, há poucos motivos para ansiar por uma liderança económica dos Estados Unidos. Um ano após a sua tomada de posse, Davos representou um alerta poderoso de que ele está longe de estar normalizado.

O Fórum Económico Mundial deste ano, em Davos, foi outra oportunidade para a administração do presidente Donald Trump apresentar a sua habitual incontinência verbal e para enviar ondas de choque para a economia mundial. Desta vez, houve duas fontes.

 

O primeiro choque foi provocado pelo Secretário do Tesouro dos EUA, Steven Mnuchin, que quebrou a disciplina que durava há mais de duas décadas sugerindo que um dólar mais fraco seria do interesse dos Estados Unidos. O segundo foi provocado pelo Secretário do Comércio, Wilbur Ross, que pareceu regozijar-se com a perspectiva de os EUA vencerem uma guerra comercial.

 

Por uma vez, foi o próprio Trump que restabeleceu a calma ao negar que os EUA estavam a perseguir uma estratégia de "empobrecimento do vizinho". Mas fê-lo apenas depois de as declarações dos seus secretários terem suscitado respostas duras por parte dos parceiros internacionais.

 

Se o primeiro ano de Trump na presidência é uma indicação do que está para vir, há poucos motivos para ansiar por uma liderança económica dos Estados Unidos. Um ano após a sua tomada de posse, Davos representou um alerta poderoso de que Trump está longe de estar normalizado.

 

Para ser justo, a administração Trump não é certamente a primeira a colocar a "América Primeiro". Os EUA têm estado mais relutantes do que os países europeus em assinar e em permanecer em compromissos internacionais devido ao seu sistema político muito voltado para dentro e devido à forte tendência para se isolarem. A rejeição, em 1948, da Carta de Havana (uma tentativa inicial para criar uma organização mundial do comércio), a hostilidade do Congresso em relação às instituições de Bretton Woods ou a recusa, por parte do presidente George W. Bush, em ratificar o Protocolo de Qioto sobre as alterações climáticas são apenas alguns exemplos.

 

A aplicação de medidas cruéis para defender os interesses norte-americanos não começou com Trump. A decisão unilateral do presidente Richard Nixon, em 1971, de abandonar o padrão ouro foi um duro golpe para o sistema monetário internacional. A experiência monetarista da Reserva Federal dos EUA, no final da década de 1970, precipitou a crise da dívida da América Latina. Um braço de ferro com o Japão na década de 1980 levou a que as regras comerciais tenham sido contornadas. E no rescaldo da crise financeira mundial de 2008, a Fed implementou o quantitative easing apesar dos protestos que isso suscitou e que diziam que estas medidas iam permitir uma deflação das exportações dos EUA.

 

Ainda assim, há algo diferente desta vez. Desde o momento em que herdaram do Reino Unido a liderança mundial – simbolicamente com a assinatura da Carta do Atlântico no Verão de 1941 – até à eleição de Trump, passaram 75 anos e poucos duvidavam que os EUA eram os proprietários do regime económico internacional. Dependendo da época e das condições políticas, os EUA podem desvalorizar as regras ou reforçá-las; podendo comportar-se de forma mais egoísta ou mais generosa; e podem perseguir interesses de curto prazo ou objectivos de longo prazo mais amplos. Mas independentemente do que fizessem, pareciam ser o accionista dominante do sistema mundial. O resto do mundo sabia isso perfeitamente.

 

Existiram motivos geopolíticos fortes para esta posição. Até ao fim da Guerra Fria, o sistema de regras e organizações que formavam a infra-estrutura institucional do comércio internacional, investimento e finança, eram considerados pelos EUA como vitais para a prosperidade do "mundo livre" e para conter a influência soviética. Depois do colapso da União Soviética, o sistema serviu como um meio estratégico para a integração dos antigos países comunistas na economia capitalista internacional.

 

Por fim, no início da década de 2000, o sistema económico mundial começou a ser considerado como a melhor plataforma para acomodar o crescimento da China. A China foi convidada a juntar-se ao clube, com a promessa implícita que depois de ter aprendido a cumprir as regras do jogo, contribuiria para modificá-lo. Teria a oportunidade de participar na gestão do sistema internacional e gradualmente ganhar poder e influência. A ascensão da China à Organização Mundial do Comércio, em 2001, foi um marco importante.

 

O que fundamentalmente mudou com a administração Trump não foi o facto de o presidente se comportar de uma forma mais egoísta do que os seus antecessores. É que ele parece não estar convencido de que apoiar o sistema mundial serve os interesses estratégicos dos EUA. Decisivamente, parece convencido que integrar a China neste sistema e dar-lhe um lugar no topo é a melhor forma de acomodar o seu crescimento económico.

 

Para o resto do mundo, a questão fundamental agora é se o sistema mundial está suficientemente resiliente para sobreviver à saída do seu criador.

 

Em termos superficiais, as consequências económicas internacionais da presidência Trump parecem benignas. Os receios em torno de guerras cambiais estão a diminuir. A economia mundial não degenerou numa espiral proteccionista. Mesmo a saída dos Estados Unidos do frágil acordo climático de Paris não teve como resultado o seu colapso. Pelo contrário. Todos os outros líderes – a começar pelo presidente da China, Xi Jinping – confirmaram o seu compromisso com o acordo e 174 países já o ratificaram. Os receios relacionados com as questões de segurança parecem mais sérios devido às disputas em relação ao acordo nuclear com o Irão e a incerteza sobre como lidar com o lançamento de mísseis por parte da Coreia do Norte.

 

Mas, pelo menos, a visão de que a economia está em terreno firme está perigosamente errada, dado que é assumido que as regras da economia mundial e das instituições criaram o equivalente a uma constituição económica e financeira. De facto, o sistema continua muito incompleto para se auto-regular e o seu funcionamento exige uma orientação constante e iniciativas discricionárias constantes. É por isso que grupos informais, como o G7 ou o G20, continuam a ser essenciais: dão os conhecimentos políticos necessários. Mas também eles dependem muito do apoio e da liderança norte-americana.

 

Por exemplo, não foram as regras do sistema que deram uma resposta à crise de 2008; foi uma série de iniciativas ad hoc – um proteccionismo comercial, resgates a bancos coordenados; estímulos mundiais e provisões de liquidez em dólares através de linhas, para nomear apenas as principais – é muito devido aos Estados Unidos. Sem a liderança e as iniciativas de actores fundamentais, como o Reino Unido e a França, a crise teria sido muito pior.

 

É verdade que outros grandes ‘players’ – a Europa, a China, a Índia e o Japão – podem ser capazes de exercer uma liderança mundial. Mas, nesta altura, falta-lhes a vontade, a capacidade e a coesão necessária. Por isso, o mundo não deve ter ilusões. Manter o barco no seu caminho depois de o comandante ter deixado o leme é uma coisa; enfrentar isso numa tempestade é outra. Esperemos que a próxima tempestade não aconteça muito rápido.

Jean Pisani-Ferry é professor na Hertie School of Governance em Berlim e na Sciences Po em Paris. Actualmente lidera o Tommaso Padoa Schioppa no European University Institute.

Copyright: Project Syndicate, 2018.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

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