Bob Ward
Bob Ward 06 de agosto de 2013 às 00:01

As mudanças climáticas em números

Embora a taxa de crescimento tenha sido menor nos últimos 15 anos do que era anteriormente, quase todos os cientistas do clima acreditam que a desaceleração é temporária, e que o aquecimento irá acelerar novamente no futuro próximo

Os governos de todo o mundo acabam de receber um dos mais importantes relatórios científicos alguma vez escritos. Esse relatório apresenta a avaliação mais clara até agora da forma como o clima na Terra está a responder ao aumento dos níveis de gases de efeito estufa na atmosfera, e a criar riscos para os milhares de milhões de pessoas, como consequência de eventos climáticos extremos e da subida do nível do mar. 


A proposta confidencial do novo relatório sobre as causas e consequências do aquecimento global foi enviada para os governos no dia 7 de Junho, antes da publicação da versão final no próximo Outono. O relatório, compilado para o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas por 255 cientistas de universidades e institutos de pesquisa de 38 países, fornece uma visão geral actualizada das conclusões de milhares de trabalhos de investigação recentes.

Mais importante ainda, o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla inglesa) – parte da quinta avaliação abrangente, na sua história de 25 anos – inclui uma análise de novas projecções computadorizadas de como poderá evoluir o aquecimento global até ao final do século. Os resultados iniciais mostram que, com o ritmo actual de emissões de dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa, a temperatura média global pode ser, pelo menos, três graus centígrados mais alta até ao final deste século do que era antes do início da Revolução Industrial e do consumo generalizado de combustíveis fósseis.

Numa cimeira das Nações Unidas, em 2010, os governos acordaram que as emissões devem ser reduzidas drasticamente, com o objectivo de limitar o aquecimento global a dois graus centígrados até ao final deste século. Assim, é provável que o novo relatório do IPCC aumente a pressão sobre os líderes mundiais, que vão estar reunidos na cimeira da ONU em 2015, para que concluam um novo tratado internacional sobre alterações climáticas, que implique cortes de emissões juridicamente vinculativos.

Entre as principais questões que foram abordadas por pesquisas recentes - e que constam do relatório do IPCC - estão as tendências actuais nas concentrações de gases de efeito estufa e as temperaturas globais. A bibliografia científica indica que o nível de CO2 na atmosfera é hoje cerca de 40% maior do que o nível pré-industrial. Está no nível mais alto desde a época de Plioceno, há cerca de três milhões de anos atrás, quando o planeta era de dois a três graus centígrados mais quente, os glaciares eram muito menores, e o nível do mar era cerca de 20 metros mais alto.

Entretanto, a temperatura da superfície global já aumentou cerca de 0,8 graus centígrados. Embora a taxa de crescimento tenha sido menor nos últimos 15 anos do que era anteriormente, quase todos os cientistas do clima acreditam que a desaceleração é temporária, e que o aquecimento irá acelerar novamente no futuro próximo.

Os governos vão negociar um resumo do relatório do IPCC, linha por linha, numa reunião especial, em Estocolmo, no final de Setembro, com o relatório principal a ser publicado logo em seguida. No próximo serão conhecidos mais dois relatórios importantes – centrados nos desafios da adaptação aos efeitos das mudanças climáticas e sobre a forma de mitigar as piores consequências possíveis através da redução das emissões. Juntamente com uma síntese das principais conclusões, estes relatórios vão completar a quinta avaliação.

O IPCC, criado pela Organização Meteorológica Mundial e pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente, deu aos responsáveis políticos informações fidedignas sobre o estado do conhecimento sobre as mudanças climáticas desde 1988. A sua última avaliação completa, em 2007, concluiu que o aquecimento global, ao longo dos últimos 50 anos, foi "inequívoco", e que havia uma probabilidade de 90% de a maior parte ter sido causada pela actividade humana, incluindo a queima de combustíveis fósseis.

Mas o IPCC também foi objecto de polémica quando reconheceu, em 2010, que as consequências das alterações climáticas indicaram, erradamente que, com os níveis actuais de degelo, todos os glaciares dos Himalaias desapareceriam em 2035, em vez de dentro de vários séculos. Esse pequeno, mas importante erro, levou o IPCC a pedir às academias científicas nacionais que revissem os seus procedimentos.

Como resultado das recomendações das academias, o IPCC apertou os seus métodos de revisão, criou um novo processo para corrigir possíveis erros em relatórios futuros, e introduziu uma política mais explícita para lidar com potenciais conflitos de interesse entre os autores.

Os opositores do IPCC têm tentado, sem sucesso, minar o novo relatório, filtrando selectivamente versões anteriores. Citaram secções fora do contexto, a fim de criar uma impressão enganosa sobre o seu conteúdo, alegando falsamente que a pesquisa mostra que os raios cósmicos vindos do espaço são os responsáveis pelo aquecimento global.

No entanto, os governos e o público em geral podem estar certos de que o relatório vai ser a avaliação científica mais fiável sobre as mudanças climáticas que alguma vez foi produzida. O mais importante é que permitirá que as pessoas leiam, por si próprias, o veredicto oficial da comunidade científica mundial sobre as evidências relacionadas com as alterações climáticas. Em seguida, os cidadãos podem avaliar a eficácia dos esforços para reduzir as emissões de gases de efeito estufa - e decidir se os seus governos estão a fazer o suficiente para gerir os riscos impostos pelas alterações climáticas.

 

Bob Ward é director do Instituto Grantham de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas e Meio Ambiente, da Escola de Economia e Ciência Política de Londres.


© Project Syndicate, 2013.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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