Leonel Moura
Leonel Moura 18 de agosto de 2016 às 19:20

As políticas do impossível

Diz-se que a política é a arte do possível. Mas, no tempo em que o imprevisível domina e os novos desafios surgem a cada esquina, é cada vez mais difícil encontrar respostas e soluções no campo do possível. 

A maioria dos cidadãos considera a classe política incapaz e incompetente. Basta referir os casos de França e do Governo de Hollande, da trapalhada do Brexit ou das constantes acrobacias das instituições europeias. A velha política dos consensos, dos equilíbrios, dos interesses, do só fazer aquilo que se pode fazer e nunca mais do que isso, faliu.

 

Em seu lugar vão emergindo as políticas do impossível. Aquelas que representam propostas inesperadas ou soluções imprevistas. Em Portugal, temos o caso da atual coligação que junta PS, PC, Bloco e Verdes. Até ao momento em que se formalizou era tida por impossível. O arco da governação não o permitia. Meses depois, com excelentes resultados num clima de cooperação aberta como nunca existiu, em que se assume as diferenças, mesmo assim são muitos os que continuam a dizer que não pode ser, não funciona, vai acabar para a semana. Não percebendo que, mesmo que isso seja inevitável, tudo morre, se abriu um caminho que alterou radicalmente a política portuguesa.

 

Em Espanha, por exemplo, não se tem conseguido resolver a questão eleitoral porque, apesar dos novos partidos e das novas ideias, não se conseguiu sair do campo do possível. Aí, não há solução.

 

Outro exemplo, num sentido totalmente oposto, é o de Donald Trump nos Estados Unidos. Conseguiu notoriedade, venceu as primárias, porque representa o campo do impossível. Desmantelou a compostura do partido republicano, faz propostas tresloucadas, tem uma atitude extremamente agressiva, de verdadeiro "bully". Com isso ganhou a adesão de muitos tontos, mas também de uma vasta camada da população que está farta dos políticos institucionais, dos mesmos discursos certinhos de sempre, enfim, do possível. Trump, tal como na Europa a extrema-direita, aposta num tipo de impossibilidade retrógrada. Na realidade, estes prometem regressos ao tempo em que os americanos supostamente viviam o seu sonho e os europeus só exploravam o mundo, mas não o partilhavam.

 

As políticas do impossível vão expandir-se para todos os lados. Para as utopias e para as distopias. Apesar dos riscos, são inevitáveis. Não só porque a política tradicional está esgotada, mas porque temos hoje desafios que irão forçar mudanças radicais. Causados pelos problemas ambientais que põem em risco a própria sobrevivência da vida no planeta. Pelo crescente e insuportável fosso entre ricos e pobres que gera violência social. Pela crise do capitalismo financeiro que leva à falência empresas, bancos e famílias. Pelo terrorismo que nos quer fazer regressar à idade das trevas.

 

Pelo seu carácter disruptor, destacaria o incontornável desafio que coloca a inovação tecnológica. Sabemos como a revolução digital provocou vastas alterações nos modos de vida e na atividade humana. Extinguiu profissões, obrigou a mudar comportamentos a uma enorme velocidade. Promete, com a inteligência artificial e com a robótica, provocar uma desocupação generalizada para a espécie humana. Os números apontam para que, dentro de poucas décadas, 50% das pessoas não tenham qualquer atividade remunerada. Não será certamente com as políticas do possível, os fundos de desemprego e a assistência social, que a sociedade poderá aguentar um tal embate. Só o que é hoje tido por impossível nos pode salvar.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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