Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 28 de outubro de 2014 às 00:01

As preferências dos eleitorados

Na democracia de massas e nas sociedades sujeitas às correntes da globalização, as preferências tornaram-se mais importantes do que as ideias.

 

A FRASE...

 

"No Brasil, é um facto que ninguém vence sem o voto dos pobres, mas neste domingo a disputa (e a chave da eleição) está entre a classe média - os que têm entre dois a cinco salários mínimos, e que compõem a classe C, que cresceu exponencialmente com os governos do Partido do Trabalhadores."

 

Rita Siza, Público, 26 de Outubro de 2014

 

A ANÁLISE...

 

A democracia é um dispositivo de selecção de representantes políticos que opera com grandes números: cada voto individual é apenas instrumental, porque o que conta é a escolha feita pelos grandes grupos sociais, motivados pelas suas preferências e pela expectativa que formam sobre quem melhor as poderá satisfazer.

 

Na democracia de massas e nas sociedades sujeitas às correntes da globalização, as preferências tornaram-se mais importantes do que as ideias: é a esperança de que as políticas distributivas corrijam as desigualdades que vão estruturar a comparação entre candidatos à escolha eleitoral. Todavia, o mesmo efeito dos grandes números também implica que essas políticas distributivas sejam condicionadas pela escala dos grupos de beneficiários e de contribuintes, pela diferença entre os que estão numa posição de dependência da distribuição e os que estão numa posição de financiamento da distribuição, pelas mudanças do campo de possibilidades que ocorrem quando se alteram as escalas destes grupos sociais.

 

Quando as escolhas democráticas eram estruturadas pelas diferenças de programas políticos, de modelos de sociedade e de modelos de desenvolvimento, eram as ideias e os programas que determinavam o que os eleitores poderiam preferir. Quando se inverteu esta relação, formou-se o paradoxo das democracias contemporâneas: os eleitores têm preferências que já não estão dentro do campo de possibilidades e os candidatos propõem o que não têm possibilidades para oferecer.

 

Não se sai deste paradoxo sem subordinar as preferências ao que for o campo de possibilidades.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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