Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
Luis Nazaré 02 de Julho de 2014 às 20:50

As compotas da avó

Desiluda-se quem pensa que florescerão fábricas fumegantes e frotas bacalhoeiras em resposta aos apelos dos economistas e a medidas de política industrial.

  • Assine já 1€/1 mês
  • 8
  • ...

 

1. "Levanta-te, paralítico!", dizia o falso profeta. E o desgraçado, por mais que tentasse, não passava do chão. "Falta-te fé!", declarava então o tratante, com ar solene. "Reindustrializa-te, Portugal!" é o novo apelo, este bem-intencionado, dos que agora verificam que a estratégia do Portugal de serviços iniciada após a adesão à CEE, em 1986, conduziu à desqualificação do tecido produtivo nacional. Só que o tempo não volta para trás, ou quando volta é para pior. Desiluda-se quem pensa que florescerão fábricas fumegantes e frotas bacalhoeiras em resposta aos apelos dos economistas e a medidas de política industrial.

 

Primeiro, foram os incentivos comunitários ao desmembramento de um bom número de sectores produtivos onde Portugal detinha condições de vantagem. Arrancaram-se oliveiras e vinhas, abateram-se frotas pesqueiras, encerraram-se minas, destruiu-se o transporte marítimo, tudo com o beneplácito do governo português e a aquiescência dos agentes económicos. À época, estes movimentos chegaram a ser saudados como uma transição necessária para a modernidade e um alívio para todos os que, tendo trabalhado durante décadas de miséria na lavoura, na pesca e nas minas, ansiavam por descanso e um futuro diferente para os seus filhos. Salta hoje à vista que os nossos vizinhos espanhóis, igualmente aliciados pelas mesmas políticas comunitárias, agiram de modo bem diferente.

 

Mais tarde, veio o alargamento a leste, a entrada da Ásia no mundo global e a moeda única. Progressivamente, grande parte do sector secundário português foi perdendo competitividade, ao mesmo tempo que os tradicionais factores de captação de investimento internacional eram pulverizados pelas imbatíveis condições das economias emergentes. Sobreviveram as indústrias onde Portugal detinha vantagens comparativas face ao exterior, quer no acesso a recursos distintivos, quer na experiência produtiva. Em muitos casos (têxteis, calçado, moldes, agro-alimentar, entre outros), o embate global induziu melhorias significativas ao nível dos processos de trabalho, das tecnologias e do marketing, do que resultou um fortalecimento das capacidades concorrenciais. É este, sobretudo este, o sector secundário com futuro e que importa apoiar, reforçando as condições para que os actuais clusters industriais se possam desenvolver sustentadamente.

 

Fora dessas fileiras, dificilmente se estabelecerá uma cultura de risco capaz de lançar a economia portuguesa noutro tipo de desafios industriais. É certo que a última década viu nascer um conjunto não despiciendo de empresas de cariz tecnológico, do chamado quarto sector (o sucessor digital do secundário). Muitas delas são o resultado da incubação realizada em universidades ou centros tecnológicos e representam já um volume sensível do novo emprego gerado após a eclosão da crise. As boas notícias são que estas start-ups são em regra constituídas por quadros qualificados e têm, à partida, ambição internacional. As más notícias são que se pautam por estratégias de nicho, dificilmente escaláveis e sujeitas a forte volatilidade tecnológica. Por isso a sua mortalidade é tão elevada. A experiência internacional demonstra que as hipóteses de sucesso aumentam na medida em que a sua oferta se interligue com clusters industriais existentes, mas não abundam entre nós exemplos deste tipo, provavelmente porque se estabeleceu uma clivagem cultural muito vincada entre a geração fabril e a do mundo digital, virada para o intangível.

 

2. O défice claro de veia industrialista em Portugal é ancestral, mas nunca como agora se fez sentir de modo tão pronunciado. As novas gerações de empreendedores não têm as atenções viradas para a produção de bens físicos ou sequer de serviços tradicionais, mas sim para as aplicações em smartphones (as apps, na gíria). Entre os muitos projectos de start-ups com que me deparo, os dedos de uma só mão sobejam para contar os que contêm uma qualquer componente de manufactura. O tempo das compotas da avó já passou, o que hoje se pretende é criar novas necessidades ou novas formas de agregar e disponibilizar informação existente no ciberespaço. E, claro, ser-se rapidamente objecto de uma aquisição milionária. Nada a opor, mas suspeito que estes novos empreendedores não vão chegar para pagar a dívida.

 

Economista; Professor do ISEG/ULisboa 

Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Mais lidas
Outras Notícias