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Tito Boeri 21 de Dezembro de 2010 às 11:47

As consequências económicas de Silvio Berlusconi

Silvio Berlusconi sobreviveu a um voto de confiança mas o seu governo está, praticamente, morto.

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Não se pode governar um país com uma maioria tão escassa. Não por muito tempo.

A única decisão importante que o quarto governo de Berlusconi se preocupou em tomar a de não decidir nada. Há dois anos, quando a Crise financeira atingiu o mundo, a escolha de Berlusconi foi evitar qualquer intervenção política para enfrentar a Grande Depressão. Isto contribuiu para a maior queda da produção italiana no período pós-Guerra, com uma queda acumulada de 6,5% do PIB. No grupo do G20, apenas o Japão teve um desempenho pior.

Extraordinariamente, a produção em Itália registou uma queda duas vezes superior à registada em França, outro grande país da OCDE, que tal como a Itália tinha evitado as causas profundas da crise: uma bolha no sector imobiliário e uma séria crise financeira. O paradoxo é que a falta de acção do governo de Berlusconi evitou uma deterioração no défice público. À luz da recente crise da dívida na Zona Euro, as vantagens de uma política de inércia são mais fáceis de analisar. A actual posição da Itália podia ser muito pior do que é.

Os problemas económicos da Itália, e as principais questões relacionadas com a sustentabilidade da enorme dívida pública do país, estão ligados ao baixo crescimento do produto potencial. Como revela a estrutura temporal dos credit-default swaps da dívida italiana, os investidores não estão preocupados com a lei orçamental de 2011. Em vez disso, estão preocupados com as condições económicas da Itália dentro de cinco a dez anos.

São estes problemas de médio prazo que o governo de Berlusconi ignorou. Nenhuma das reformas estruturais essenciais para melhorar o crescimento potencial de Itália – por exemplo, reformas do mercado laboral e dos benefícios de desemprego, liberalização dos mercados de produtos, melhorias no sistema educativo, reforma na Administração Pública do sul do país – tem sido realizada, apesar de Berlusconi poder contar com maiorias sólidas nas duas câmaras do parlamento.

Porque razão o governo de Berlusconi escolheu uma economia política tão passiva? Uma razão tem a ver com o nível da dívida italiana, que não deixa muito espaço de manobra para uma política orçamental contra-cíclica. Mas poderia ter sido feito algum esforço para estimular a economia. Por exemplo, teria sido possível apoiar as pessoas que perderam os seus postos de trabalho – algo que seria útil mesmo depois da crise – através da reforma do sistema de benefícios de desemprego.

Uma possível explicação para a falta de acção do governo durante os últimos dois anos e meio é que as medidas acordadas com a coligação que ganhou as eleições de 2008 não foram desenhadas para um país em Recessão económica. Não houve uma liderança na área da política económica que definisse novas prioridades e medidas para enfrentar as novas condições macroeconómicas.

No seu primeiro mês no poder, o governo tentou, efectivamente, fazer algo pela economia. Tomou três decisões, que cedo se percebeu que eram totalmente erradas.

A primeira medida foi reduzir os impostos sobre as horas extraordinárias. Uma medida que visava, claramente, aumentar o número de horas de trabalho. Não é preciso dizer, que à medida que o desemprego aumentava e muitos países diminuíam o número de horas de trabalho para conter a redução de postos de trabalho, as reduções de impostos sobre as horas extraordinárias foram sendo eliminadas e aumentou-se o trabalho temporal.

O mesmo destino teve um imposto Robin Hood, que, de acordo, com o ministro das Finanças Giulio Tremonto, iria forçar os bancos e os produtores de petróleo a fornecer recursos aos mais pobres. O imposto sobre os bancos tinha que ser convertido num compromisso para fornecer liquidez às instituições financeiras com problemas através das chamadas “obrigações Tremonti”. E o aumento do imposto sobre os produtores petrolíferos, implementado quando o preço do petróleo estava perto dos 160 dólares por barril, teve que ser adiado quando o preço do barril caiu para 30 dólares.

A última medida foi o desmantelamento do imposto imobiliário, uma das principais fontes de receitas dos governos locais. Este imposto ainda não foi reposto mas o governo está a planear introduzir novas taxas imobiliárias, que visam restabelecer as receitas perdidas.

Desta forma, a Itália perdeu 30 meses em que não aplicou as reformas estruturais que tanto precisa para repor o crescimento potencial do país. É verdade, que estas reformas são particularmente difíceis em tempos difíceis mas um grande número delas foram levadas a cabo na União Europeia, precisamente durante recessões. O que importa é que os períodos de contracção são alturas de “políticas extraordinárias”, em que é possível criar grandes coligações para realizar alterações de política económica de grande alcance.

Um governo que segue uma agenda de reformas, nestas circunstâncias, alerta a opinião pública das condições de emergência e apela à responsabilidade da oposição. Mas o governo de Berlusconi, e os “media” directa ou indirectamente controlados pelo primeiro-ministro, escolheu uma estratégia de comunicação diferente. Minimizou, constantemente, a dimensão da crise, e tentaram vender a ideia de que a Itália estava protegida da recessão global.

Esta estratégia pode ter evitado a dramática queda de popularidade que outros governos sentiram no meio da Grande Recessão, mas mais cedo ou mais tarde vai ter repercussões negativas. A decepção da maioria dos italianos com as regras de Berlusconi vai aumentar quando perceberem que este governo nunca apresentou os factos como eles são na realidade.


Tito Boeri é professor de Economia na Universidade de Bocconi University em Milão e director da Fondazione Debenedetti. Direitos de Autor: Project Syndicate, 2010.
www.project-syndicate.org
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