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Negócios negocios@negocios.pt 03 de Junho de 2003 às 12:04

«As obras ministeriais»

Sendo a OTA um dos maiores investimentos publicos jamais realizados, não é normal que seja a opinião deuma pessoa, por mais ministro que seja, o motivo para reavaliar prazos e opções. Por Sérgio Figueiredo

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O que mais irrita nos grandes projectos de investimento nacional, as designadas obras públicas, é não serem encarados como prioridades do país mas dos governos.

Não há planeamento de longo prazo que resista à nossa alternância democrática.

Quando um Governo faz e outro desfaz, ou o que é pior, basta mudar um ministro dentro do mesmo Governo para se equacionar tudo de novo, só uma conclusão é possível tirar: há muito milhão de euros misturado com leviandade, há muito projecto para nenhuma estratégia, há muita precipitação política para tão escassa responsabilidade pública.

É triste, mais do que isso, é grave que só agora, passado mais de um ano, o Governo entenda que o país não tem recursos financeiros suficientes para tanta obra.

E só agora esteja a tomar opções. O recém-chegado ministro das Obras Públicas, que estava à espera de um convite para a pasta do Ambiente, teve uma entrada de rompante e, numa simples entrevista, conseguiu tornar claro aquilo que o seu antecessor não conseguiu esclarecer durante doze meses: o aeroporto da OTA não é prioritário.

A explicação para adiar este mega-investimento não é totalmente convincente. Sobretudo porque assenta numa avaliação, circunstancial, da crise que está a afectar o tráfego aéreo de passageiros em todo o mundo.

Mas, verdade seja dita, também o anterior Governo socialista nunca conseguiu dar justificações consistentes sobre a racionalidade de tamanho esforço financeiro.

Muito menos provar que a ampliação da Portela, a possibilidade de construção de uma segunda pista, era insuficiente para garantir capacidade para o aumento da procura previsto para as próximas duas décadas.

Portanto, na dúvida, não se faz. Portugal tem de se concentrar em meia dúzia de causas essenciais, que vão estar presentes nos próximos vinte anos: a competitividade das nossas empresas, o futuro das pensões de reforma do nosso sistema de Segurança Social, a qualificação da nossa força de trabalho, os resultados do sistema de ensino.

Por isso, é proibido que a discussão se perca na espuma do debate partidário. E é obrigatório decidir se precisa de submarinos ou de mais auto-estradas, do comboio de alta-velocidade ou de estádios de futebol, se a prioridade é um novo aeroporto para Lisboa ou uma estação espacial perto da Lua.

O que não é normal, tratando-se dos maiores investimentos públicos jamais realizados pelo país e um dos maiores na Europa, é que seja a opinião de uma pessoa, por mais ministro que seja, o motivo para reavaliar prazos e opções.

Porque, como é evidente, e apesar de todo o esforço realizado ao nível das infraestruturas, o país continua a apresentar um défice na sua ligação à Europa. Porque, apesar de planos e contra-planos, o território português ainda não está verdadeiramente integrado na rede de transportes transeuropeias.

E este é um problema que determinará o grau e o nível da perifericidade nacional. Dito de outra forma, é preciso investir mais na nossa ligação a Espanha. E fazê-lo debaixo da restrição financeira, como é normal, mas sobretudo dentro de uma racionalidade económica - que, manifestamente, não tem existido.

Por Sérgio Figueiredo, Director do Jornal de Negócios

Artigo publicado no Jornal de Negócios

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