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Alexandre Brandão da Veiga 29 de Março de 2006 às 13:59

As taras do humanitarismo

A moda é a de espancar e maldizer as religiões cristãs. Não farei por isso o mesmo com religiões que dela nasceram como o humanitarismo. Reconheço ao humanitarismo boas obras e boas intenções, embora por vezes nem sempre coincidentes.

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A moda é a de espancar e maldizer as religiões cristãs. Não farei por isso o mesmo com religiões que dela nasceram como o humanitarismo. Reconheço ao humanitarismo boas obras e boas intenções, embora por vezes nem sempre coincidentes.

Não vou condenar o humanitarismo apenas porque nas suas fileiras se encontram muitos frustrados que usam esta religião como modo de se dar importância. Não vou criticar os casos em que as organizações não governamentais foram apanhadas em casos de corrupção, a ser financiadas ou apoiadas por fundamentalistas islâmicos ou por governos comunistas para destruir o ocidente. Ao contrário dos adeptos desta religião, ou de muitos deles, sei que o ser humano é ser humano seja qual for a opção que tome e o caminho por que se dirija.

Condeno os homens mas não as religiões enquanto tal. Não vou igualmente usar o golpe baixo de lembrar que nas origens o humanitarismo é profundamente machista, como fazem os críticos do cristianismo. Ao contrário destes sei que não se podem apreciar as coisas de uma maneira acrítica, fora do contexto histórico. Mesmo que algo que começa há duzentos e tal anos tenha menos desculpas para a misoginia que fenómenos que se mostram desde há mais de dois mil anos.

Apenas gostava de mostrar o lado podre do sagrado. É fácil criticar o cristianismo, sobretudo quando nada se sabe dele. Um conjunto de banalidades apanhadas no ar tornam-no facilmente vulnerável, porque toda a banalidade ganha a sua força na vulnerabilidade das inteligências de quem as escuta. Mas como hoje em dia o humanitarismo é a religião prevalecente na Europa, ou melhor, no seu discurso público, vejamos quais os seus pecados internos, as suas inconsistências, os seus podres intrínsecos, esquecendo o que os homens fizeram de mau com ela. Isto porque, ao contrário do que pensam os humanitaristas, nada é isento de pecado, a começar pelo humanitarismo.

O humanitarismo nasceu triplamente torto. Porque resulta da revolta contra uma configuração concreta histórica e institucional do cristianismo do século XVIII. Confunde assim a parte com o todo, sofisma lógico irrecuperável. Em segundo lugar porque se revolta contra uma igreja que nunca foi tanto do seu século. Poucas vezes a igreja havia participado em sintonia com o século dessa maneira, seja na sua tolerância, seja nos seus vícios e na sua corrupção e libertinagem. Nasce torto por esta via porque é hoje o primeiro a exigir ao mesmo tempo pureza e integração no século da instituição religiosa, contradição nos termos. E nasce torto porque decorreu de um vício de abstracção. O humanitarismo é filho do cristianismo na sua origem (basta ler Saint-Simon, Michelet, Fourier, Béranger entre outros para o ver) mas julgou poder operar em religião o que a ciência faz: generalizar pela abstracção. O problema é que uma religião é uma realidade viva e tirando a seiva a árvore seca. Por isso mente quanto às suas origens. O cristianismo. Por isso a China e os países não europeus como a Turquia têm dificuldade em perceber o humanitarismo.

O humanitarismo tem uma tentação totalitária. O humanitarismo marxista mostrou desde a origem essa tentação e prática. Mas dela não se livram as utopias científicas como a positivista e o saint-simonismo, mesmo quando assumem dimensão humanitária. O humanitarismo apenas recusa esta pretensão quando se põe em causa a si mesmo, quando nem sempre põe à frente a humanidade e se lembra que os direitos de cada pessoa concreta, cada uma, podem entrar em conflito com os da humanidade. Em nome da humanidade e dos seus benefícios tanto o comunismo como o capitalismo humanitário-democrático esmagaram culturas. A ideologia colonizadora era humanitarista, não nos podemos esquecer.

O humanitarismo padece de uma tentação imperialista. O colonialismo foi substituído por novas formas de colonialismos. A economia de mercado, os direitos do homem mais não são frequentemente que tentativas de imposição de modelos civilizacionais que não se quadram com a História seja da China, da África, da Turquia, da Ásia Central. No fundo é mais uma versão das cruzadas e da tendência expansionista de Europa que quer formar o mundo à sua imagem.

Padece igualmente de uma tentação dogmática. Porque é humanitário, tudo está explicado. E justificado. Os povos europeus não querem turcos na Europa? São racistas, não respeitam os direitos do homem. A vontade dos povos nada é perante a religião humanitária que guarda os arcanos da verdade absoluta que se recusa a dizer o seu nome. O humanitário tende a ser o sacerdote dotado de razão e isento de crítica. Não é por acaso que a ideologia humanitária levou muito tempo em conflito com o liberalismo. A discussão de ideias parece-lhe na origem uma situação provisória, transitória. Se um padre viola uma criança a igreja é pedófila. Um enfermeiro que faça o mesmo no âmbito de uma organização não governamental é um caso isolado. E mesmo que se demonstre que grande parte dos donativos são usados para custos internos nestas organizações e nos países ricos, nenhuma crítica pode ser feita.

O humanitarismo sofre assim de uma tentação persecutória. Sente-se perseguido e persegue. Uma simples crítica é vista como um insulto. Entre inquisidores da moral do mundo ou mártires de uma fé incompreendida, os humanitaristas vivem no meio da acusação. Congratulam-se por serem acusados porque isso os santifica, realizam-se acusando, porque isso os legitima.

Embate nas suas próprias contradições. Religião que deixou de dizer o seu nome, a religião da humanidade. Quem conhece os primórdios do pensamento humanitário sabe bem que se tentou construir como concorrente à religião cristã, sobretudo católica, e que de início se afirmava expressamente como a religião do futuro, a religião da humanidade. Ciência que não o é. Nem pode ser. Porque a ciência implica limitação metodológica e de objecto e nunca pretende justificar a vida humana ou a acção. Como Paul Bénichou bem viu, na ordem dos fins a ciência fica muda e tem de ficar.

Dilui identidades e uniformiza. Todos somos seres humanos, logo, mais que sermos iguais, temos de ser iguais. É evidente que existem muitas versões cismáticas poderosas nesta religião da humanidade. A vertente multiculturalista estabelece uma diferença entre seres humanos plenos, normais, mas banais e seres humanos coloridos, vivos e marcantes. Os primeiros são os europeus, o paradigma do dogma. Os segundos são os restantes povos e as «minorias», seja o que isso for.

Peca por falta de lucidez e sentido de justiça. Olhando para o prédio onde vivia Beethoven imagine-se que eu dizia: que admiráveis são as pessoas que vivem neste prédio. Fora Beethoven vivo já seria falso. Só uma o era, ou só em relação a uma temos a certeza de o ter sido. Em acréscimo o inquilino admirável já nem se encontra lá porque está morto. O humanitário admira, ou diz fazê-lo, os habitantes de um prédio todo fechando os olhos para a mediocridade de cada um dos seus habitantes. Da minha parte não admiro a humanidade como um todo. Admiro-me é como ela pode ter produzido coisas tão grandes e outras tão baixas. Admiro a realização de alguns, desprezo a mediocridade de outros e deixa-me indiferente a vida indiferente de muitos outros. Enche-me quando muito de compaixão a desgraça, mas não vejo nela um mérito em si mesma, e apenas no que dessa desgraça se faz e como é ela vivida.

O humanitarismo tende a uma invasão ilegítima da política. Turquia na Europa. Quando Chirac é perguntado por jovens se deve a Turquia entrar na União Europeia (os jovens, esses que são o futuro, mas apenas se concordarem connosco, como é evidente) e perante tanta insistência, o senhor responde: «não os podemos afastar dizendo: vocês não valem nada». Muito bem. Ou seja, dizer que eles não são europeus é dizer que eles não valem nada, logo os não europeus não valem nada. A ideologia humanitária mostra bem aqui o seu lado tartufo. Qualquer pretensão se torna legítima desde que coberta pela ideologia humanitária, por mais absurda e presunçosa que seja. Asiáticos dizem ser europeus? À falta de argumentos para demonstrar que são europeus seguem-se duas vias. Proíbe-se seja quem for se afirmar o que seja a Europa ou envia-se contra o destinatário o crime de lesa sagrado que é o de negar a humanidade. «Se me recusam esta pretensão estão-me a negar a humanidade». Seja qual for a pretensão, e tanto mais arbitrária melhor.

Todas as religiões servem de fundamento às mais variadas pretensões. Sempre serviram. O que o humanitarismo tem de específico, por ter herdado do cristianismo, mas por ter perdido a sua seiva vital, é o de poder ser aplicado por qualquer ser humano a qualquer ser humano. Nisso é igual a uma arma. Ou nos protege, ou nos mata. O homem Deus do homem? Não tenho a humanidade em tão baixa conta. É capaz de conceber bem melhor.

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