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BCE: Sempre, sempre "behind the (yield) curve"

As posições fundamentalistas do Banco Central Europeu (BCE) em defesa da sua "dama" (uma inflação estável, não superior a 2%) são já um clássico. Argumentam muitas vezes os responsáveis da instituição sediada em Frankfurt com o andamento da massa monetária

As posições fundamentalistas do Banco Central Europeu (BCE) em defesa da sua "dama" (uma inflação estável, não superior a 2%) são já um clássico. Argumentam muitas vezes os responsáveis da instituição sediada em Frankfurt com o andamento da massa monetária - quando a correlação entre este indicador e a inflação já há muito tempo perdeu aderência; outras vezes, não querem ver os sinais evidentes transmitidos pelos indicadores de confiança e de medição da actividade económica, que claramente aconselhariam outra postura (e sabe-se que não há pior cego do que aquele que não quer ver). Mas, apesar de tudo isto, confesso que não esperava que, na (profunda) crise que estamos a viver, a actuação do BCE pudesse pautar-se pela falta de realismo e bom senso a que, em minha opinião, temos assistido. Vejamos.

Em Julho último, quando a influência negativa da crise financeira sobre a economia era já bem sentida (também na Europa), o BCE, muito preocupado com a alta do preço do petróleo (que tinha levado a inflação da Zona Euro para mais de 4%), e mesmo com o presidente Jean-Claude Trichet a referir que as expectativas eram de claro abrandamento dos preços, resolveu subir a taxa refi de 4% para 4.25%. Sucede que, nos EUA, o Fed já tinha começado a descer os juros desde Setembro de 2007 (dando a entender, logo aí, que a inflação não era, claramente, a prioridade…); e o Banco de Inglaterra começou a baixar a "base rate" também nesse ano.

Depois, foi o que se sabe: em Outubro, perante o queda a pique da confiança e o descalabro financeiro que se seguiu à falência do Lehman Brothers em Setembro, e a rápida propagação da turbulência à economia, o BCE viu-se obrigado a baixar os juros numa acção global concertada com vários outros bancos centrais, desde os EUA à Austrália, passando por vários países europeus (fora da Zona Euro) e asiáticos.

Desde o início da crise, o BCE desceu os juros em 2.25 pontos percentuais (pp) - o que compara com os 5 pp de corte nos EUA (que levou a "fed funds target rate" para um intervalo entre 0% e 0.25%), ou com a descida de 4.75 pp da taxa base em Inglaterra (encontra-se em 1%). Elucidativo… Aliás, dos bancos centrais cuja acção é mais acompanhada em todo o mundo, só o Banco do Japão cortou menos do que o BCE - mas isto porque os juros estavam em 0.5%, tendo diminuído para 0.1%... (o que, em termos relativos, representou uma queda de 80%!...).

E na última reunião, em Fevereiro, o BCE anunciou uma pausa na descida dos juros - como se a situação estivesse para isso!... A confiança cai a pique em todos os sectores europeus (consumo, indústria, comércio, serviços…), batendo mínimos de mais de duas décadas, os dados da actividade conhecidos apontam para uma profunda recessão, a inflação aproxima-se de zero, e o BCE… acha que uma pausa é apropriada!... Ok - o BCE considera que taxas de juro próximas de zero não são apropriadas, porque esgotam a margem de manobra… Concordo - mas, que diabo, 2% ainda é muito longe de zero!… E a verdade é que já há algum tempo que as empresas e as famílias europeias bem agradeceriam juros mais baixos… mesmo que, depois, a margem de manobra fosse muito mais limitada (como já sucede com o Fed e o Banco de Inglaterra).

Creio que este tipo de postura não beneficia ninguém, deixando a credibilidade do BCE pelas ruas da amargura. Claro que, já daqui por dois dias, na reunião de Março, é natural que o Sr. Trichet e seus pares baixem a "refi rate" para 1.5% - mas isso já vem tarde e mostra um BCE claramente ultrapassado pelos acontecimentos, isto é, "behind the curve", ao contrário do que seria desejável da parte de um banco central, que, como qualquer decisor, deve sempre tentar antecipar e prever os acontecimentos e não ir a seu reboque…

Isto mesmo é, aliás, o que mostra a curva de rendimentos da Zona Euro ("yield curve"), construída com base nas taxas dos bilhetes do Tesouro franceses e alemães até um prazo de 12 meses, e nas taxas dos títulos de dívida pública alemã para maturidades superiores. Resumidamente, esta curva representa as expectativas dos agentes quer para a evolução da economia, quer para a inflação: taxas mais baixas indicam, para o prazo em questão, piores perspectivas económicas e uma mais baixa inflação; taxas mais elevadas indiciam expectativas inversas. Ora, nas últimas semanas, as taxas até aos 3 anos, inclusive, encontram-se abaixo dos 2% em que actualmente se encontra a taxa refi. O que indicia, neste horizonte temporal, baixas expectativas para a actividade económica, uma desaceleração do crescimento dos preços e… como tal, novos cortes de taxas por parte do BCE - como, aliás, indiciam as taxas a 3, 6 e 12 meses que estão já em redor de 1%. E até as taxas Euribor, que supostamente não se deveriam encontrar abaixo da taxa directora do BCE, têm vindo a situar-se, até ao prazo de 7 meses (inclusive), abaixo de 2%...

É, pois, evidente, que o BCE foi há muito ultrapassado pelos acontecimentos. O que, em minha opinião, se deve bem mais a uma notória falta de bom senso (que por vezes chega a bradar aos céus!...) do que, por exemplo, ao facto de o seu mandato ser totalmente focado na inflação - e não, como é o caso do Fed nos EUA, equilibrado para monitorizar inflação e a actividade económica.

Creio que ajudará, sem dúvida, que este mandato do BCE possa ser aproximado do que tem o Fed assim que tal for possível - que é como quem diz, quando a crise for ultrapassada, para não dar a sensação de que foi ela própria que originou esta alteração, o que conferiria uma dispensável fraqueza adicional aos líderes europeus e ao próprio projecto da moeda única. Mas a verdade é que não há alteração de mandato que valha se não existir bom senso… E a falta deste, no BCE, é um hábito e não uma raridade, como devia suceder…

Um banco central que é, em geral, ultrapassado pelos acontecimentos, tem uma postura fundamentalista e se situa sistematicamente "behind the curve" não pode, nunca, ser visto como um exemplo. Nem, o que é pior, contribui para ajudar a transmitir confiança e resolver problemas numa Europa que bem dispensava esta (falta de) ajuda.
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