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Fernando Braga de Matos 07 de Outubro de 2011 às 12:02

Bolsa: bater o mercado com menos risco?

(Onde o autor, esperando ver devidamente apreciado o seu humor negro e esmerado sentido de oportunidade, vai pôr-se a falar de acções - quem já estiver em gargalhada só espero que não entre em riso convulso - e apresenta aos martirizados investidores as conclusões de um estudo académico (americano, claro) o qual sugere que o título deste magnífico texto não é a quadratura do circulo mas realidade pura e dura. E esta, hein?).

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Os gringos que avançam com o resultado do estudo, publicado no "Financial Analysts Journal ", onde afirmam o que aqui deixamos no intróito, são Brendan Bradley, Malcolm Baker, e Jeffrey Wurgler, académicos ligados às universidades de Harvard e Nova Iorque. Não gente da laia do maluquinho que entrou pela BBC a profetizar uma recessão apocalíptica e a denunciar a mão negra da Merryll Lynch, foi entrevistado à séria e viu as suas palavras reproduzidas em título por todo o mundo (veja no Youtube). Não sei se, assim de repente, dá para entender que a teoria significa um sério ataque (para utilizar terminologia agora muito em voga) contra toda a teorização de ciência financeira e até mesmo contra o provérbio português "quem não arrisca não petisca".

Ora, o que os distintos investigadores verificaram foi que, tomando o período entre 1968 e 2010 nos Estados Unidos, e, como amostras em confronto, o quintílio das acções menos voláteis entre as 1000 maiores e o quintílio das mais voláteis, estas ofereceram um retorno anual de 6,6% e aquelas uns impressionantes 10,2%. A média geral para o período foi de 9,6%. Já se sabia que aquelas acções mais defensivas, em "bear market", se comportam melhor que estas, que é como quem diz menos pessimamente. Mas que a benfeitoria abrange, pelos vistos, mesmo todo o período de tempo, isso é que causa surpresa, tanto mais que a tendência secular para as acções é claramente altista. Realmente, que é feito dessas balelas sobre risco-retorno? - interrogava-se, por outra palavras mais dignas, o vetusto "Wall Street Journal" e, na passada, este modesto autor.

Em perplexidade, aparecem várias explicações para o fenómeno, mas apenas ainda em mera tentativa. Diz a que, assim do pé para a mão, me parece mais fundamentada: É tudo uma questão de capitalização, basta ver que a percentagem de ganho necessária para eliminar um perda vai sempre a aumentar em cascata - se se perdeu 10%, é preciso uma recuperação de 11% para se "ficar em casa"; se a perda atingiu 20%, há que recuperar 25%; se a desgraça fôr de 50%, então é necessária uma subida de 100%. Sendo assim, as acções mais voláteis em perda necessitam de mais tempo para readquirir o valor de partida, deixando menos espaço temporal para fazer funcionar a bola de neve da capitalização. Outra com graça é a que afirma que as acções com beta mais elevado (as que sobem percentualmente mais que o mercado em geral) são mais procuradas e, então, tendem a ficar sobrevalorizadas e a serem compradas caras. Os "patos", na dita explicação, são os particulares atrás do El Dorado e os gestores de fundos a tentar bater o "benchmark" (a medida considerada como padrão, normalmente um Índice).

Seja qual for a razão, incluindo o acto divino, o que é certo é que já há uma corrida à referida estratégia por parte de novos fundos com a designação "baixa volatilidade, principalmente com ETFs, com recomendação de rodar a carteira por períodos da ordem dos 3 a 6 meses. Mas como parte da Humanidade é por natureza céptica, graças a Deus, há quem arrume a nova moda, sustentando que a efectividade vai cair em sentido oposto ao da popularidade, tal como já acontecera com outras anomalias do mercado, como os "efeito Janeiro" e "sexta-feira".
Que fazer? Como essa coisa de bater o mercado é possível mas não provável, uma experimentação talvez seja boa ideia, tanto mais que muitas dessas acções com baixo "beta" pagam altos dividendos, os quais, reinvestidos, aumentam o efeito capitalização. Mas eu continuo a pensar que, sendo embora impossível prever o comportamento do mercado, não é megalómano julgar que, pelo menos, as grandes mudanças de tendência podem ser visualizadas em curto prazo, através de indícios que deixei revelados para a posteridade, nos meus admiráveis livros. Não digam a ninguém, mas eu embarquei nos dois grandes momentos de viragem para "bull market" da última década, em 9 de Abril de 2003 e 11 de Março de 2009, e, neste último caso, até o escrevi, no dia, neste jornal, dando à crónica o título "O dia da viragem?". Mas, nessas alturas, o que se compra é alta volatilidade.
Fui explícito? Também achei que não.



Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença). fbmatos1943@gmail.com
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