Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 20 de fevereiro de 2018 às 19:46

Bomba-relógio no cromossoma X

A maioria das mulheres raramente ou nunca tem tempo para fazer as coisas de que realmente gosta. Como sair da armadilha em que nos metemos...

Como é que as mulheres não hão de andar com a cabeça às voltas, consumindo cada vez mais antidepressivos e ansiolíticos, se a maioria afirma que raramente ou nunca tem tempo para fazer as coisas de que realmente gosta? Muito bem andam elas, tendo em conta o stress de que são feitas as suas vidas, pelo menos a partir dos 15 anos, segundo o estudo "Os Usos do Tempo de Homens  e de Mulheres em Portugal". Cá para mim começou mesmo no berço, onde  lhes foi feita uma lavagem cerebral com o objetivo de as fazer crer que lhes competia chegar a tudo e a todos, quais malabaristas de circo que aguentam não sei quantas bolas no ar, sem deixarem nenhuma cair ao chão.

 

É claro que quando se tornam mães a situação agrava-se, e, quantos mais filhos, ficam necessariamente com menos tempo para si, mas a prova de que o cerne da questão não é matemático está no facto de  entre os 15 e os 24 anos já serem 37% as raparigas a afirmar-se sem tempo para aquilo de que realmente gostam, contra 25% dos rapazes. Dos 25 aos 44 anos a situação torna-se positivamente dramática, com a percentagem a crescer para perto dos 60%, enquanto os homens se ficam pelos 44%, o que convenhamos também é muito deprimente. À medida que a idade avança as mulheres parecem, aos poucos, ir conquistando para si clareiras de paz e sossego, para depois se calhar terem sossego a mais a partir dos 65 anos, mas essa é outra história que hoje não é para aqui chamada. 

 

Mas as mulheres cometem outro erro, além de se esquecerem delas próprias, e do que lhes dá realmente prazer: andam sempre apressadas, espartilhadas num horário de oito horas e três quartos de trabalho pago, a que somam nada mais do que 4 horas e 29 minutos de trabalho não remunerado. Nesta maratona de exigência, citam como ilhas de sanidade mental o intervalo da hora do almoço, e sobretudo as mães falam no mítico serão após os filhos estarem deitados - o que, de uma penada, clarifica os dramas em redor do adormecimento e do sono das crianças, ou não tivessem eles antenas para captar a ansiedade e o desespero de uma mãe à beira de um ataque de nervos.  Os fins de semana são outra miragem: depois do levar e trazer de atividades desportivas e festas de amigos, de se arrastarem por mil programas destinados a cultivar e entreter os descendentes, das visitas aos pais e aos sogros e do que resta das tarefas domésticas, está bom de ver que não sobra nada. Pelo menos para elas.

 

No meio de tudo isto, nem sequer vale a pena sonhar com viver no campo, porque por lá o tempo já corre igualmente depressa, segundo revelam os números. Provavelmente porque não é o mundo exterior, e as suas milhentas contrariedades que, na verdade, são responsáveis por tudo isto. Pela minha parte contraponho a hipótese de que o sexo feminino, nalguma ponta do cromossoma X, tem incorporado uma bomba-relógio. Para a desarmar mais do que gastarem o escasso tempo que lhes sobra a ler reportagens sobre filhos tiranos, como perder peso numa semana, ou subir na carreira em dez dias, precisavam de parar para pensar em como se podem libertar desta escravatura, senão autoimposta, pelo menos consentida. Segundo as notícias desta semana, comece já por se livrar da obsessão pela lida da casa, porque as limpezas fazem tão mal como fumar 20 cigarros por dia. Jornal da Sociedade Torácica Americana dixit.

 

Nota: "Os Usos do Tempo de Homens e de Mulheres em Portugal", de Heloísa Perista, Ana Cardoso, Ana Brázia, Manuel Abrantes e Pedro Perista, contém informação preciosa para nos percebermos melhor a nós e ao mundo. Encontra-o aqui:

 

http://www.inut.info/uploads/1/5/1/3/15135554/inut-livro.pdf

 

Jornalista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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