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Mário Negreiros 03 de Janeiro de 2006 às 13:59

Bonecos

Não sei se por falta ou se por excesso de assessores na matéria, é inacreditável a quantidade de pó-de-arroz usado nesta campanha eleitoral.

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Cavaco Silva e Manuel Alegre, ainda mais do que os outros candidatos, aparecem de tal maneira embonecados nos seus cartazes de campanha que um turista desavisado poderá ficar confuso. Parecem travestis a quem as perucas acabaram de ser arrancadas. Ou candidatos a avós da Barbie, a boneca de plástico. Estranhíssimos, de qualquer maneira.

Há duas hipóteses para explicar esse fenómeno. A primeira e menos assustadora é de que foram ambos vítimas da incompetência de quem os maquilhou, de que aquele não era o resultado pretendido e que o problema não terá sido corrigido porque simplesmente tinham mais o que fazer (no que não deixariam de revelar algum desleixo com os financiadores da campanha, que terão pago bom dinheiro por aqueles cartazes); a outra e mais assustadora hipótese é de que ambos terão alcançado precisamente o resultado que queriam e, portanto, aparecem nos cartazes tal como pretendem ser vistos pelos portugueses - ou como acham que os portugueses os querem ver (afinal, são candidatos, e o natural é que os candidatos queiram agradar os eleitores).

Assustadora será essa hipótese caso se revele um engano na avaliação que os candidatos fazem do que queremos deles, e ainda mais assustadora seria se fosse mesmo assim - coberto de pó-de-arroz - que os portugueses quisessem ver o seu próximo Presidente da República.

Assustadora porque aqueles homens não existem, sequer homens são - trata-se de bonecos postos no lugar dos verdadeiros candidatos e, pelo que se sabe, com o consentimento dos verdadeiros candidatos, que nunca se levantaram para denunciar a impostura. Estaríamos a votar em bonecos de ventríloquos, que, como se sabe (Gepeto que o diga), são as criaturas menos confiáveis do Universo.

E se fossem mulheres? A pergunta parece muito correcta mas, como boa parte das perguntas que parecem muito correctas, não passa de uma impertinência - as mulheres são com maquilhagem. O pó-de-arroz e as outras coisas todas que põem na cara não fazem delas seres diferentes do que são (mulheres, eis o que são, sempre). Se eu quiser uma mulher Presidente da República terei que querer uma Presidente da República com pó-de-arroz. Se quiser um homem, terá que ser sem pó-de-arroz. Sexista, eu? Sim, muito. Pelo menos três vezes por semana.

PS: Só para prevenir más interpretações do que aí vai escrito: não integro nenhuma comissão de apoio a nenhum dos candidatos, e só não sei exactamente em quem não votar para Presidente da República porque não tenho nenhuma ideia de em quem votar para Presidente da República.

PPS: Pinos. Milhares de pinos fincados ao longo dos passeios deste país. Barreiras físicas - eis a única coisa capaz de impedir que toda essa canalha continue a tratar os passeios públicos como se de estacionamentos privados se tratasse.

PPPS: Dois polícias da esquadra de trânsito de PSP a quem perguntei se havia alguma razão para estacionarem a viatura de serviço em cima do passeio e que, por isso, me identificaram, como a um criminoso, e me levaram (e à criança de seis anos que eu trazia pela mão) à esquadra, foram pronunciados e serão julgados por crime de abuso de autoridade. Voltei a acreditar na Justiça como hipótese, e só então me dei conta, na prática (que é muito mais do que na teoria), do valor que há numa Justiça que se imponha.

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