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Opinião
António Mateus antoniomateus@hotmail.com 03 de Janeiro de 2006 às 13:59

Borboletas políticas!

Porque o confronto de ideias nunca foi cultura semeada no Mundo lusófono por quem segura as alfaias do poder. E, podendo fugir-se à alternância do poder, porque não, se os há donos da verdade única, mas sempre isentos de culpa, do estado do Estado?

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Vota em quem? P’ra quê?» – Rosabela devolvia a pergunta como quem atira adobe à parede, na certeza de, em segundos, o ver retornado ao chão.

A palhota voltava a crescer no Panalto, pela enésima vez, sempre no mesmo sítio, à beira do talhão onde os mais antigos, regressavam à Terra. Há gerações.

As mãos sossegavam por segundos, no colo, secando-se na capulana que a resguardava das vergonhas vindouras porque as passadas, nos ventos de guerra, mais valia fossem varridas, sem memória. Como o calor do seu homem.

O riso dos meninos. Sementes atiradas à terra quente, muito antes das primeiras chuvas.

Da política conhecia as vozes de discursos, tornados amorfos por repetidos, horas a fio, em sucessivos comícios, temperados de promessas nunca cumpridas e ataques, esses sim, sempre assacados com juros, no saldo de sua vida.

Dos colonos se libertou para um sonho abortado em pesadelo. Depois, a amnésia absorvente das promessas eleitorais e dos amanhãs que cantam foi o único factor coerente e consistente no somar dos dias, meses e anos.

«E vocês lá em Portugal como é que escolhem Presidente, se nos prometem sempre um futuro melhor e ele nunca chega?» – e os olhos da negra subtraíram ao jornalista, a ligeireza de uma resposta redonda, cheia de palavras. Vazia de vida.

Rosabela leu a resposta na hesitação do interlocutor e resguardou os sentidos para o sacho das mandiocas, enquanto o jornalista ainda debitava o ror de virtudes da democracia e respectivas potencialidades.

Angola volta a votos talvez este ano, para escolher pela segunda vez o Presidente da República, em 30 anos de Independência. Vota?se votar. Porque o confronto de ideias nunca foi cultura semeada no Mundo lusófono por quem segura as alfaias do poder.

E, podendo fugir-se à alternância do poder, porque não, se os há donos da verdade única, mas sempre isentos de culpa, do estado do Estado?

Rosabela podia ser analfabeta, preta e burra, como lhe chamara tantas vezes o velho patrão, entre dois calduços, uns olhares rebolados nas curvas, então sustentadas, da moçoila, mas ia acompanhando o que se passava «na política do Portugal», entre relatos radiofónicos do futebol, escutados pelo marido.

«Angolanos e portugueses são como irmãos. Podem viver agora em casas separadas mas são mesma família. Filhos do mesmo pai. Que se podem chatear, por isso mesmo, como irmãos rivais, mas partilham os mesmos gestos, a mesma mania de ter o mais possível, fazendo o menos possível».

Filósofa, afinal, a mamana, sobrevivente dos assaltos do tempo e dos homens.

«É verdade!» – ajura ela.»Sei tudo o que se passa nas eleições do próximo Presidente português. Para nós é assim como? um treino para os angolanos. Mas deve ser d´a gente ser preto que não entende mesmo como é que vocês escolhem Presidente».

Rosabela ia encurralando cada vez mais o repórter, no redil de sua rede: « Então olha lá! Me explica o sentido do que oiço. Vocês têm jornalistas que escreve bem mesmo. Não é? Não pode ser erro de redacção. Certo?».

O escriba anuiu, meneando a cabeça, pondo na borda do prato os cada vez mais corriqueiros atropelos à Língua, semeados nos pivots e peças televisivas e radiofónicas e nos textos impressos.

«Pois?vocês têm um candidato que, segundo dizem os jornalistas, não avança ideias, gere apenas silêncios mas é também por outro lado e ao mesmo tempo atacado por querer fazer coisas, no cargo de Presidente, que a Constituição portuguesa não lhe permite. Certo?».

«Depois, tem quatro candidatos saídos de partidos de esquerda, que afirmam, todos eles, ter por principal objectivo derrotar o primeiro. O tal sem ideias, que só sabe fazer contas e como Presidente não vai ter nada para somar. Certo?»

«Agora explique-me você: Isto é de eu ser analfabeta ou vocês andam todos à nora e vão votar por instinto, medo ou esperança em vez de convicção?

Perante a escolha no prato e não tendo o vosso Presidente, como dizem, qualquer poder real, vocês vão votar «em» ou vão votar «contra»?».

«Raio da mulher» - socorreu-se a si próprio o jornalista, desta lógica de ilógica. «Quem é ela para nos vir dar lições de moral, num país onde até há pouco vigorava a democracia da bala e impera a cleptocracia?».

O jornalista estugou o passo, rua abaixo, ressuscitando o orgulho ferido, por contraste, no cenário de destruição das paredes de casas esventradas, carros calcinados, ruas com vestígios de alcatrão.

Mas o sorriso dos meninos que lhe iam cruzando o passo, os «bons dias» cantados à sua passagem, aos poucos, germinaram-lhe, aos poucos, uma lucidez só acessível a quem olha a política de fora.

Reduzindo-a ao que podia ser, mas não é. Ao espectáculo mediático de sucessivas pseudo-notícias sobre inanidades, e um silêncio ensurdecedor sobre as promessas quebradas e as responsabilidades no esvaziar da nossa esperança, num Mundo melhor.

Analfabeta, a Rosabela, não frequentou cursos de comunicação social, mas descodificou tudo o que é importante. Os desvarios de quem corre, por si. E para si. E respectivas borboletas , seduzidas pelo brilho de poder.

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