Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 25 de junho de 2019 às 20:00

Boris Johnson e a colectivização da vida privada

Será desta que a vida privada de Boris Johnson o vai derrotar? A pergunta merece, em resposta, uma outra pergunta: será que algum político deve ser derrotado pela sua vida privada? É uma questão difícil.

Em 2004, Boris Jonhson encontrou-se com o jornalista Andrew Gimson, que estava a escrever a biografia do então deputado-estrela do Partido Conservador. Boris, na altura com apenas trinta e nove anos, havia inicialmente aderido à ideia com humor e um entusiasmo tipicamente mitómano, como se fosse um velho estadista vitoriano ("obviamente dar-te-ei acesso integral aos meus documentos"). Nesse dia, porém, já não estava tão convencido. Gimson tinha-lhe dito que a biografia falaria das atribulações da sua vida privada, especialmente as da vida conjugal e sentimental, e Boris queria controlar os danos: "Se for uma coisa para gozar, tudo bem. Algo que se proponha a revelar a verdade será intolerável."

 

Gimson respondeu que habitualmente os políticos têm mais problemas quando querem esconder os seus problemas do que quando os reconhecem. E que os episódios incómodos do passado de Boris perderiam o poder de o afectar quando fossem conhecidos. Por isso, mais valia não esperar por quando fosse primeiro-ministro. A biografia acabou de facto por ser escrita e publicada, em 2006, sob o título "The Rise of Boris Johnson". É lá que este encontro vem relatado.

 

A intimidade de Boris Johnson nunca lhe atrapalhou excessivamente as ambições políticas. Nem na circunscrição rural de Henley pela qual foi eleito e reeleito deputado, nem muito menos em Londres, onde foi eleito e reeleito Mayor. Na verdade, em Henley qualquer conservador ganharia; e, de toda a população mundial, os londrinos devem ser os que menos fazem julgamentos políticos sobre vida dos outros. Para além disso, como Boris foi sempre um político socialmente liberal, os seus comportamentos pessoais nunca entraram em contradição grave com qualquer discurso público moralista.

 

Na semana passada, a conversa sobre a vida íntima de Boris regressou em força, agora que ele parece o mais bem colocado para ser o próximo primeiro-ministro britânico. Isto por causa de uma discussão em casa da actual namorada, audível pelos vizinhos, que a gravaram e revelaram ao Guardian - que por sua vez a noticiou. A polícia foi chamada (pelos vizinhos) mas não registou qualquer queixa ou ocorrência ilegal. Até ver, tudo não passou de um arrufo especialmente agreste entre dois namorados, aproveitado com sensacionalismo pelo jornalismo politicamente engajado.

 

Ainda assim, a imprensa tem insistido: será desta que a vida privada de Boris Johnson o vai derrotar? A pergunta merece, em resposta, uma outra pergunta: será que algum político deve ser derrotado pela sua vida privada? É uma questão difícil.

 

Por um lado, a política tem uma função de representação, que depende da empatia entre eleitos e eleitores. O carácter e os valores morais de quem se candidata são obviamente importantes. Por exemplo, é natural que alguém não goste de Boris Johnson por ele ser um adúltero em série, e não queira votar nele por causa disso.

 

Mas, por outro lado, a nossa civilização distingue-se porque em princípio não é legítimo que o Estado tenha alguma coisa a dizer sobre a nossa vida privada. Num regime autoritário ou totalitário, sim, tudo é político, não há reservas de privacidade e toda a intimidade deve ser controlada e orientada. Numa ordem política democrática, baseada nas liberdades individuais, não.

 

Ora, quando fazemos julgamentos políticos sobre alguém com base em aspectos da sua intimidade, que não têm uma implicação imediata e evidente para vida da generalidade das outras pessoas (mesmo que moralmente reprováveis), estamos sempre a colectivizar indevidamente a vida privada. E quando aceitamos colectivizar a vida privada estamos a inclinar o plano em favor da tirania, porque contribuímos para uma cultura que legitima o Estado na sua permanente tentação de intromissão.

 

Em 2011, o sistema político-mediático britânico foi abalado pelo escândalo das escutas e gravações ilegais feitas por jornalistas do grupo de Rupert Murdoch, que levou ao encerramento do News of the World e a uma investigação pública ordenada pelo governo. O Guardian foi, e bem, um dos mais ferozes defensores da punição exemplar dos envolvidos. Que agora actue desta forma apenas mostra como o recuo do valor da liberdade parece, de facto, inexorável.

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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