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Mário Negreiros 11 de Julho de 2006 às 13:59

Cabeçadas

Na final eu estava pela França. Por duas razões: preferia que Portugal tivesse sido tirado da final pela campeã e não pela vice-campeã e, mais do que isso, admirador confesso de Zidane, queria que ele tivesse uma despedida em grande.

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Mas grande foi a asneira e eu virei casaca. Fiquei pela Itália. Terminado o jogo, não fiquei nada satisfeito – nem com a vitória da Itália nem com a derrota de França, e menos ainda com a ausência de Zidane.

No momento em que escrevo ainda não há notícias credíveis sobre o que terá levado Zinedine Zidane a perder a cabeça – ou, mais precisamente, a fazer dela ponta de ariete. O máximo que consegui saber até agora foi que um primo argelino de Zidane disse à Associated Press que o capitão da selecção francesa teria sido chamado de «terrorista» pelo italiano Marco Materazzi.

Mas a AP não chegava a esclarecer como o primo tinha vindo a saber daquilo, se teria ouvido do próprio Zinedine ou se teria sido só mais um palpite, com a única e discutível vantagem de ser palpite de primo. É pouco. Mas, nos tempos que correm, é verosímil.

Os preconceitos sempre foram óptimos alimentos para agressões verbais. Essencialmente estúpidas (se os terroristas eram argelinos, os argelinos são terroristas, logo, Zidane é terrorista), as agressões forjadas no preconceito são sempre verbalmente irrespondíveis. Compreendo perfeitamente que se perca a cabeça diante de uma agressão forjada no preconceito. E, reconhecendo que Zidane sempre se marcou pela elegância em campo e por uma calma que chegava à beira da frieza, admito perfeitamente que o que o levou a agir como agiu tenha sido coisa diante da qual eu fosse capaz de atitude ainda mais estúpida.

Sem saber o que antecedeu a cabeçada de Zidane, dou-lhe o benefício da dúvida, ou melhor, da convicção profunda de que Materazzi terá colhido o que, deliberadamente, plantou, e de que na noite de domingo, muito mais terá doído o peito de Zidane do que o de Materazzi. E, se o condeno, muito mais do que pela cabeçada é por ter chegado a esboçar (pouco, reconheça-se) algum protesto contra a expulsão. O que havia a fazer, numa situação como aquela, era nem esperar pelo cartão vermelho, antecipar-se ao árbitro, pedir-lhe desculpas, e ao público e aos companheiros, e sair.

PS: É curiosa a coincidência de Zidane e Figo – os dois Senhores do futebol – terem usado, literalmente, a cabeça para agredir os seus adversários neste Mundial. Honra lhes seja feita pela frontalidade. Menos mal do que dar coices, como Rooney.

PPS: Vou comprar um capacete. É para encher de  cabeçadas cada carro que vir no meu caminho, em cima do passeio. Hão-de compreender-me.

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