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Mark J. Roe 15 de Julho de 2013 às 00:01

Calcular os custos do "demasiado grande para cair"

Os reguladores americanos estão a sugerir fortemente que vão permitir o incumprimento da dívida de longo prazo num banco em falência, enquanto afirmam que vão encontrar uma forma para resgatar a dívida de curto prazo.

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A ideia de que alguns bancos são "demasiado grandes para cair" emergiu da obscuridade do debate regulatório e académico para o debate público mais amplo sobre finanças. A Bloomberg News começou a mais recente discussão pública, ao criticar o benefício que estes bancos recebem – um benefício que um estudo divulgado pelo Fundo Monetário Internacional demonstrou ser muito grande.

Os grupos de pressão e os representantes dos banqueiros retiraram importância ao editorial da Bloomberg citando um único estudo e confiando nas notações das agências de "rating" para os grandes bancos, que demonstraram que muitos teriam de pagar mais pelo seu financiamento de longo prazo se os mercados financeiros não esperassem contar com o suporte do governo em caso de dificuldades.

Contudo, há cerca de dez estudos recentes, e não apenas um, sobre o benefício que os bancos "demasiado grandes para cair" recebem do governo. Quase todos eles apontam na mesma direcção: um grande impulso no subsídio do "demasiado grande para falir" durante a crise financeira, tornando mais barato para os grandes bancos endividar-se.

Mas um relatório recente divulgado pelo Goldman Sachs argumenta o contrário – e merece ser tomado em consideração de forma mais séria do que os esforços anteriores para retirar importância ao problema. O relatório conclui que, ao longo do tempo, a vantagem dos grandes bancos nos custos de financiamento de longo prazo em relação aos bancos mais pequenos tem sido de um terço de ponto percentual; que esta vantagem é pequena; que foi encolhida recentemente (e pode ser invertida); que advém da eficiência dos grandes bancos e da liquidez das suas obrigações; e que historicamente têm sido maioritariamente os pequenos bancos, não os grandes, que têm falido.

O Goldman está certo no facto de que os Estados Unidos apoiaram historicamente bancos pequenos e não permitiram que estes falissem. A crise de poupanças e empréstimos da década de 80 foi um problema de 100 mil milhões de dólares. Os bancos que faliram durante a Grande Depressão dos anos 30 foram os bancos pequenos. Mais perniciosamente, porque os bancos pequenos, ao contrário dos grandes, pagaram a maioria dos custos da sua falência, através de um fundo de seguros e se concederam aos pequenos bancos monopólios locais, pelo receio de que a concorrência intensa levaria muitos a falir. Os clientes eram afectados porque a concorrência era fraca.

O relatório do Goldman parece uma resposta à recente proposta dos senadores Sherrod Brown e David Vitter de aumentar acentuadamente os requisitos de capital dos grandes bancos e eximir dessas exigências os bancos pequenos (presumivelmente para obter dos bancos pequenos apoio político ou por nostalgia dos bancos locais ou porque os senadores acreditam que os bancos pequenos não apresentam problemas regulatórios). Como os bancos pequenos foram historicamente muito propensos às falências e faliram em massa, a proposta de Brown-Vitter sublinha um problema importante – chama-o de "demasiados para falir".

Mas, embora o Goldman esteja certo em alargar o foco da sua observação para incluir a fraqueza dos bancos pequenos, isso mina a lógica inerente a esta visão de que a redução da vantagem dos custos de financiamento de longo prazo implica que os problemas dos bancos americanos acabaram. O Goldman tem razão em que os bancos pequenos entram em falência e têm sido protegidos pelos seguros e resgates do governo; mas isso significa que a vantagem de financiamento dos grandes bancos sobre os bancos pequenos precisa de ser somada a qualquer vantagem que os próprios bancos pequenos tenham.

Do mesmo modo, se a vantagem de financiamento dos grandes bancos não é realmente tão grande agora como foi no passado, essa diminuição pode significar que outros entendem o que o relatório do Goldman diz: os bancos pequenos vão à falência também, e o governo ou o fundo de seguros resgata-os. Um diferencial cada vez menor nos custos de financiamento pode apenas significar que os mercados financeiros o reconhecem.

Além disso, ao medir o subsídio do "demasiado grande para falir" na base das obrigações de longo prazo dos bancos, o relatório do Goldman erra em grande medida. A dívida a curto prazo dos bancos é o que o faz falir numa crise e é a que é resgatada em primeiro lugar. Os grandes bancos, não os pequenos, são os participantes mais importantes no mercado da dívida de curto prazo, o que torna as suas obrigações mais arriscadas do que as dos bancos pequenos. Então, se o mercado avalia de forma similar a dívida de longo prazo dos bancos grandes e a dos pequenos, mesmo que a dívida dos grandes bancos seja mais arriscada, algo deve estar a dar um impulso à dívida mais arriscada dos grandes bancos.

Os reguladores americanos estão a sugerir fortemente que vão permitir o incumprimento da dívida de longo prazo num banco em falência, enquanto afirmam que vão encontrar uma forma para resgatar a dívida de curto prazo. Se os mercados financeiros considerarem que é provável que cheguem até ao final, o impulso do "demasiado grande para falir" pode ser aplicado mais à divida de curto prazo dos grandes bancos do que à dívida de longo prazo de quaisquer bancos.

E é certo dizer que a quantia envolvida – um terço de um ponto percentual na poupança de juros da dívida de longo prazo – é pequena? Os grandes bancos utilizam tanta dívida actualmente e muito menos fundos próprios – o rácio é tipicamente de dez para um – que uma pequena vantagem de financiamento representa uma grande fracção do lucro de um banco. Dependendo de quanta dívida de longo prazo um banco utilizar, uma vantagem de financiamento de um terço de ponto percentual pode prontamente representar 10% ou mais do seu lucro anual. Isso não é uma mudança pequena seja qual for a definição desta.

Finalmente, se nos focarmos no subsídio do "demasiado grande para falir" num momento em particular, erramos muito. Com a economia a melhorar, a falência é menos provável. Os bancos podem continuar a ser "demasiado grandes para falir" mas, ao ter uma probabilidade menor de quebrar numa economia próspera, o subsídio imediato desce. E o maior custo das falências dos principais bancos não é o subsídio, ou o custo de um resgate. Deriva dos estragos causados pela debilidade de demasiadas instituições financeiras e a sua inesperada falência simultânea, o que reduz o crédito e degrada a actividade económica no geral. A quebra financeira em massa é cara, mesmo que ninguém, grande ou pequeno, seja resgatado.

Copyright: Project Syndicate, 2013.
www.project-syndicate.org

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