Ramon O’Callaghan
Ramon O’Callaghan 16 de abril de 2019 às 20:12

Califórnia: o grande paradoxo

Com um produto interno bruto de 2,9 biliões de dólares, superando a Grã-Bretanha como a quinta maior economia mundial, a Califórnia continua, contudo, a ser um dos Estados mais desiguais dos Estados Unidos.

De visita à Califórnia, o chamado "Golden State", fui surpreendido pelos seus muitos contrastes. Pelas ruas de São Francisco, vi Maseratis passar junto de sem-abrigo enquanto os habitantes da cidade passam, indiferentes a ambos. Riqueza e pobreza misturam-se nesta cidade única, considerada a capital mundial da tecnologia. Uma cidade que reflete tanto os milhares de milhões de dólares de Silicon Valey, como o aumento galopante dos sem abrigo. Mark Zuckerberg vale 70 mil milhões de dólares, e os habitantes de São Francisco têm o Snapcrap, uma app que os ajuda a rastrear fezes humanas nos passeios.

 

Com um produto interno bruto de 2,9 biliões de dólares, superando a Grã-Bretanha como a quinta maior economia mundial, a Califórnia continua, contudo, a ser um dos Estados mais desiguais dos Estados Unidos. De acordo com a Census Bureau's Poverty Measure (que reporta o custo de habitação, alimentação, serviços e vestuário), quase um em cada quatro californianos é pobre.

 

A escassez de habitação tem inflacionado cada vez mais os preços, bem acima do aumento do rendimento. Os governos locais impuseram regulamentos restritivos que fizeram disparar o preço dos terrenos e das habitações. Na Califórnia, o preço médio das casas é mais do dobro da média nacional e 30% dos californianos gasta mais de metade do seu rendimento em habitação. Famílias com rendimentos médios foram forçadas a aceitar padrões de vida mais baixos, enquanto que as classes menos favorecidas foram arrastadas para a pobreza. Outros, em particular famílias com crianças, incapazes de arcar com custos cada vez mais elevados, mudaram-se para o Texas, Arizona, Nevada e Oregon.

 

Desde 2011, a Califórnia tem vindo a aumentar os seus gastos com a administração pública. O pesado sistema público tem sobrecarregado os contribuintes. Em cima de um oneroso imposto sobre o rendimento, a Califórnia adiciona o imposto sobre vendas mais alto do país, juntamente com impostos sobre a propriedade que penalizam, desproporcionalmente, os mais desfavorecidos. Para o indivíduo comum, esta situação representa um fracasso sistémico, social e político.

 

Mas não é como se os políticos tenham negligenciado o combate à pobreza. O Estado da Califórnia e os governos locais gastam avultadas quantias em programas de apoio social, incluindo pagamentos de subsídios de assistência social, entre outros. A Califórnia, com 12% da população americana, representa um terço dos beneficiários destes programas. No entanto, a despesa abundante não só falhou na redução da pobreza, como parece ter ajudado a piorar esta situação.

 

No final dos anos 80 e início dos anos 90, alguns estados americanos iniciaram reformas sociais, que colocaram exigências de trabalho com alguma pressão para os beneficiários. Estas reformas foram amplamente reconhecidas como um grande sucesso, à medida que milhões destes beneficiários entraram no mercado de trabalho.

 

No entanto, na Califórnia, as burocracias das entidades públicas que implementam os programas anti pobreza resistiram a estas reformas. Na verdade, os beneficiários dos programas sociais da Califórnia recebem uma grande parte do seu dinheiro "sem compromisso", o que criou uma armadilha de dependência, na qual os imigrantes estão a cair.

 

Alguns afirmam que é no facto da Califórnia ser um estado de um partido único que reside o problema da pobreza. Com uma maioria permanente no Senado e na Assembleia, com um domínio prolongado no poder executivo e fraca oposição, há muito tempo que os Democratas da Califórnia estão livres para continuar a praticar as mesmas políticas, pagando pouco ou nenhum preço político.

 

Mas serão essas enormes disparidades nos rendimentos, educação, habitação e riqueza inevitáveis?

 

Ambos, pontos fortes e fracos, da Califórnia podem, de facto, ser menos políticos do que estruturais. As indústrias em que a Califórnia se destaca - a economia do conhecimento na área da baía de São Francisco e a economia do entretenimento, em Los Angeles - beneficiam das economias de aglomeração. Certas empresas e trabalhadores nestes setores acham muito difícil localizar-se em qualquer outro lugar. As vantagens de localização tecnológica e entretenimento da Califórnia, capacitam o Estado a obter altos níveis de tributação, que podem causar fuga de capitais, quando comparado com um Estado baseado numa indústria mais tradicional. Além disso, as empresas da economia do conhecimento são diferentes das empresas mais tradicionais, pois obrigam a uma um envolvimento mais ativo do governo em assuntos como a proteção à propriedade intelectual, infraestruturas urbanas e investimento em ciência e educação.

 

Quando se fala sobre o futuro dos EUA, os Estados mais citados são Califórnia e Texas.  Ambos os estados têm competido pela criação de empregos e pelo crescimento económico. Mas, em termos de impostos e gastos públicos, representam escolhas muito diferentes: a Califórnia é mais alta em ambos os casos, e o Texas, mais baixo. Os conservadores preferem o modelo do Texas, em grande parte porque tem a sexta carga fiscal per capita mais baixa, e os gastos do governo do Estado e local ocupam o 12º lugar da lista.

 

Em última análise, os eleitores decidirão se os EUA seguirão o modelo da Califórnia ou do Texas.

 

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