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António Mateus antoniomateus@hotmail.com 24 de Agosto de 2005 às 13:59

Cambalhotas do outro Mundo

Em quatro décadas, África libertou-se do colonialismo europeu, agarrada a sonhos e promessas de visionários, humanistas e poetas da revolução mas também de figuras sinistras, tão ou mais brutais que a tutela deposta.

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Eduardo se cambalhotou no outro Mundo, com o descaminhanço pigmentar da revolução. A tal que o partido assegurou lançar contra o sistema colonial, que esganava emoções e corações em Lisboa e Além-mar, e não o povo português.

Por muito que, desde logo, se enevoasse, também assim, o recorte das margens. Entre o ser-se africano e o ser-se tuga.

Nos esconsos do continente, a África do Sul do apartheid, ditava aqui um juízo Salomónico, dividindo a paleta racial em dois únicos braços; Europeus (que é como quem diz, os brancos)  e «não-europeus» (as restantes «patines» do arco-íris pigmentar).

«Crime contra a humanidade» - protestou o Mundo inteiro. As raças são apenas e tão-só adereços de um mesmo ser humano, cidadão Planetário, concebido igual, residente no espaço físico onde lhe brilham os sonhos. Seja ele onde for e porque for.

Em quatro décadas, África libertou-se do colonialismo europeu, agarrada a sonhos e promessas de visionários, humanistas e poetas da revolução mas também de  figuras sinistras, tão ou mais brutais que a tutela deposta.

Eduardo se cambalhotou no outro Mundo. A revolução fora para tornar irmãos, iguais, os que partilhavam a mesma terra e o mesmo povo no coração, e não dividir continentalmente manadas de seres humanos, distinguidas pela cor da pelagem.

Eduardo se cambalhotou em vida, quando negros, por o serem, eram tratados como corpos estranhos na Europa, mesmo quando aqui tinham nascido ou de África apenas carregavam a pigmentação.

Eduardo se cambalhotou (já) no outro Mundo, quando o descaminhanço da revolução, germinou na sua terra a erva daninha que ele passara a vida a capinar, da alma colonial. Do coração do apartheid.

«Racismo não tem raça». Lia-se num jornal de parede de Manjacaze, «páginas-meias» com; «O professor é o comissário político da escola» -  Outra das máximas da revolução.

Mais abaixo, no continente, um dos jornalistas mais notáveis ainda vivos na África do Sul, Max du Preez era acusado de trair as suas raízes afrikaners, ao investigar e denunciar abusos raciais cometidos pelo sistema de minoria branca, então em vigor no país.

Dele, afirmou o então presidente Pieter Botha que «este homem passou a vida a criar problemas a toda a gente» antes de o último Chefe de Estado branco sul-africano, Frederik de Klerk, o rotular como «um dos meus piores inimigos».

Anos mais tarde e depois de Nelson Mandela - para quem o coração humano não tem raça - elogiar Du Preez como «um exemplo para todos», um porta-voz do actual governo de maioria negra, descreveu o jornalista banco como «um comissário político do apartheid».

Max du Preez relata, de forma desassombrada, esta viagem de emoções e a fragilidade dos valores morais e éticos numa autobiografia (»The Pale Native») onde assomam ainda revelações perturbantes sobre o novo ciclo de segregação racial.

Já após a queda do regime de apartheid, Max du Preez participou num concurso para um posto sénior na televisão pública sul-africana.

Um dos membros do júri confidenciou-lhe que apesar de ser, de longe, o candidato mais qualificado para o posto, fora preterido para o cargo por ser branco.

O confidente era um antigo jornalista negro a quem Du Preez abrira as portas da carreira quando o regime de segregação racial espartilhava tais «afinidades» pigmentares

Du Preez reagiu, como sempre, de forma coerente com os seus princípios; por muito que lhe custasse testemunhar e sofrer na pele tal «descaminhar» da revolução, pelo menos - sublinhava ele -  no seu país, essa é uma facada de que se falou e se o pode fazer na imprensa e no parlamento nacionais.

No país de Nelson Mandela e Desmond Tutu, essa é retribuição bastante para um dos melhores jornalistas do continente mesmo ficando assim no semi-desemprego por ser branco quando «é a vez dos negros»

Eduardo se cambalhotou no outro Mundo. E eu... neste.

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