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Teodora Cardoso 27 de Dezembro de 2005 às 13:59

Caminhos para 2006

É necessário progredir muito mais e reinventar um caminho, que ultrapasse o dilema entre o alargamento e o aprofundamento e que, sobretudo, ponha termo à ideia de que resistir à mudança conduz a algum resultado que não seja o suicídio económico e político

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Comentando a economia mundial em 2005, Martin Wolf escrevia há dias no «Financial Times»*1: Este é, pois, um mundo de crescimento forte. Mas é também um mundo com alta rendibilidade das empresas, mas fraco investimento; com crescimento rápido, mas com grandes défices orçamentais e baixas taxas de juro reais; e com países pobres em crescimento rápido que financiam o consumo das famílias dos países mais ricos. É também - e não por coincidência - um mundo de globalização, de baixa inflação e de bancos centrais credíveis.

Esta é provavelmente a melhor síntese que pode fazer-se da economia mundial em 2005. Não pode dizer-se que seja animadora, especialmente porque é claro que esta não é uma situação estável, embora os principais parceiros mundiais não se mostrem dispostos a corrigi-la.

Para os Estados Unidos, a situação parece ideal: défices financeiros das famílias de 7,2% do PIB e do Estado de 4% são facilmente financiados pelo exterior; políticas de energia irresponsáveis atiram o preço do petróleo para níveis que não se viam desde a crise de 1979/80, mas a inflação permanece baixa e o crescimento e os lucros das empresas continuam altos. Alan Greenspan, comentando a política orçamental do seu país, afirma que as consequências de nada fazer podem ser graves, mas a cegueira ideológica parece condenar qualquer hipótese de alteração séria a esse nível. Tudo continuará, pois, a repousar numa política monetária cujo indiscutível êxito ajuda a prolongar uma situação que se tornará tanto mais difícil quanto mais tarde for atacada.

Quando fez avançar o projecto da moeda única, a Europa tinha por objectivo alcançar um maior peso na política económica mundial e reduzir a sua vulnerabilidade ao dólar. Isso exigia, no entanto, uma coesão de política (não só económica) interna que continua a estar muito longe de ser alcançada. A independência do banco central e o Pacto de Estabilidade e Crescimento foram tomados como suficientes, quando não eram mais do que peças da necessária coordenação em matéria de política económica, elas próprias a requerer um apertado acompanhamento e os consequentes aperfeiçoamentos.  O próprio êxito no lançamento da moeda única fez passar para segundo plano a necessidade de coesão face à concorrência global e à postura de política internacional. Nas palavras de outro colunista do «Financial Times»*2, onde encontra a UE o seu próprio espaço entre as políticas nacionais e o mundo que a envolve? Um dos efeitos óbvios da globalização é o de reduzir a capacidade de cada governo por si só proporcionar segurança, não só económica, aos seus cidadãos. Outro, porém, é o de levar esses mesmos cidadãos a exigir a protecção dos seus governos contra os ventos da mudança. O resultado - errado - deste dilema é o de acreditar que só resta optar entre o fatalismo perante a turbulência envolvente ou a retirada para um nacionalismo defensivo.

A solução de qualquer problema actual - da energia ao ambiente, da segurança à emigração, das políticas de concorrência ao investimento, ao emprego  e às políticas sociais - depende da coesão europeia e temos de agradecer a visão daqueles que a fizeram avançar. É, contudo, necessário progredir muito mais e reinventar um caminho, que ultrapasse o dilema entre o alargamento e o aprofundamento e que, sobretudo, ponha termo à ideia de que resistir à mudança conduz a algum resultado que não seja o suicídio económico e político.

O que temos de assegurar em Portugal em 2006 é o reconhecimento desse facto, com tudo o que ele acarreta de retorno à confiança nas nossas próprias capacidades e enquanto membro da União Europeia. Um dos passos para isso é acabar com a ideia de que nos basta continuar a receber fundos e a enunciar «direitos» sem criar as condições que permitam dar-lhes corpo. Temos, pelo contrário, que aceitar a concorrência global e compensar as suas consequências destrutivas com políticas económicas e sociais construtivas, flexíveis e eficientes, que permitam salvaguardar os mais fracos e dar a todos incentivos para participarem mais activa e eficazmente no bem-estar comum. Um modelo social que procura proteger postos de trabalho ou salários economicamente insustentáveis tornou-se, não só irrelevante, mas prejudicial aos próprios trabalhadores, dado que desincentiva o investimento, a formação e o próprio emprego. Um modelo social eficaz no actual contexto tem de ser pro-activo, ajudando os trabalhadores e as empresas a reconhecer as oportunidades e a adaptarem-se a elas. Na Europa existem bons exemplos a esse respeito, há muito identificados. Agora é preciso segui-los, na prática do governo e dos parceiros sociais e nas críticas das oposições.

 
*1 The Surprises of the Past Year, 20-12-2005.
*2 Philip Stephens, Europe can tame winds of change, 3-11-2005.

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