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Negócios negocios@negocios.pt 25 de Março de 2002 às 15:19

Carlos Viana : «Produtividade, Marketing e Política»

Exceptuando os que vivem na economia paralela, com a ausência ou complacência do poder, a sorte só existe para alguns nos concursos de televisão e da Santa Casa e mesmo assim são prémios à dimensão da nossa economia e da nossa ambição.

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Se considerarmos uma empresa, ou mesmo um país, como um sistema simplificado poderemos afirmar que a produtividade mede a eficiência com que os input geram os output, ou de outra forma, como capital e trabalho são utilizados eficientemente na produção de bens.

Numa economia de mercado em sobreoferta, os consumidores tenderão a escolher livremente os bens e serviços que lhes proporcionam maior satisfação, isto é, os bens relativamente aos quais os consumidores percepcionam maior valor. Esta economia, conduzida pela procura, eliminará progressivamente do mercado as empresas menos eficientes e possibilitará o crescimento das empresas com melhor oferta. Simultaneamente criará oportunidades para novas empresas entrarem no mercado.

Os inúmeros estudos empíricos realizados comprovam que as organizações (privadas ou públicas) mais competitivas, mais produtivas e mais lucrativas são aquelas que estão orientadas para a inovação e para o mercado e que assentam toda a sua gestão no conceito de marketing. O sucesso das empresas fará crescer o emprego, os rendimentos, os lucros e os impostos e incentivará o empreendedorismo, ao mesmo tempo que os accionistas se sentirão mais motivados a investir. Mesmo nos períodos de abrandamento económico, as empresas e organizações orientadas para o mercado, resistem melhor à adversidade.

A economia portuguesa que cresceu a um ritmo razoável no passado, sofreu nos anos recentes uma desaceleração no seu crescimento. Este facto deve-se, em larga medida, à crescente concorrência externa, ao recente abrandamento da procura e à menor competitividade e menor produtividade relativa da nossa economia. Deste modo só maior competitividade, maior diferenciação e níveis crescentes de produtividade assegurarão uma eficiente utilização dos recursos disponíveis e um crescimento convergente com os países europeus mais desenvolvidos. O resultado será o crescimento da riqueza. Os actores privilegiados deste crescimento serão as empresas e o Estado, este último actuando na qualidade de actor directo na sociedade (accionista, cliente, comprador e gestor) e na qualidade de indutor e regulador das políticas que possibilitem criar ambientes competitivos e eficientes.

No caso português, o desempenho do Estado e dos sucessivos governos nacionais, tem sido no sentido de introduzir frequentes entorses no mercado, impedindo o natural encerramento de algumas empresas e organizações ineficientes, maioritariamente públicas ou com participação pública. O objectivo deste proteccionismo não é reestruturar as empresas, melhorar as condições da oferta, da competitividade e da produtividade em benefício dos consumidores. Tais enviesamentos de mercado favorecem “posições monopolistas”, permitem o abuso de posição dominante, criam “lobbies” e “jobs for the boys”. Os beneficiados retribuirão com votos (e não só) as benesses recebidas ou a receber, como recentemente confessou desastradamente um dos “donos da bola”. Além disso o Estado, como fornecedor de serviços públicos gera também improdutividade nas empresas privadas por via da concorrência desleal, do excesso de burocracia, da não regulação e fiscalização dos mercados e de uma forma geral, pela intervenção desajustada da administração pública sobre a actividade das empresas e sobre a vida dos cidadãos. Falha frequentemente o Estado na implementação das políticas de desenvolvimento, ao mesmo tempo que o ensino, a saúde, a justiça e a segurança, entre outros serviços, são cada vez mais ineficientes, de baixa qualidade, consumindo crescentes e insuficientes recursos que são alimentados em exclusivo pelos cidadãos que não fogem ao pagamento de impostos. A resultante é a existência de défices nas contas externas, o descontrolo das contas públicas e o descrédito dos cidadãos pela actividade política. O Estado vicia a concorrência, não contribui suficientemente para o crescimento da competitividade e influencia negativamente, de forma directa e indirecta, a produtividade.

Com novo governo à vista, seria de esperar que os políticos explicassem como vão fazer as reformas necessárias e inadiáveis à melhoria dos serviços disponibilizados aos cidadãos e à melhoria da qualidade e da produtividade das organizações geridas pelo Estado. Empurrados pelo “lobby” do betão em associação com os “donos da bola”, os dirigentes dos principais partidos políticos atingiram rapidamente o grau zero (absoluto) da propaganda política (qual marketing político?) em período eleitoral. Continuaram a prometer melhores serviços de saúde, mais justiça, maiores salários, maiores pensões, mais estádios, mais universidades, mais hospitais e mais, mais e mais... . Pouco ou nada disseram sobre a sustentação económica para cumprir tais promessas. Nem tão pouco deram boas razões para que os portugueses possam acreditar que as promessas irão ser cumpridas, quando o não foram no passado.

Como é unanimemente reconhecido, sem reformas políticas, sem redução dos custos do funcionamento do Estado e dos serviços públicos, sem aumento da produtividade e sem a boa adequação dos bens e serviços prestados aos cidadãos e às empresas não haverá criação de riqueza suficiente para sustentar tantas promessas feitas em época de eleições.

Exceptuando os que vivem na economia paralela, com a ausência ou complacência do poder, a sorte só existe para alguns nos concursos de televisão e da Santa Casa e mesmo assim são prémios à dimensão da nossa economia e da nossa ambição.

Por Carlos Viana,


Consultor na Apicer e docente no IPAM em Marketing Internacional

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Artigo publicado no Jornal de Negócios – suplemento Negócios & Estratégia

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