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Luis Macedo e Sousa 07 de Julho de 2005 às 13:59

Cartazes eleitorais: mudar de vida ou mais do mesmo?

A gestão dos custos de uma campanha eleitoral é um desafio efectivo, pela disponibilidade de dinheiro a que obriga, pelas limitações legais a que está sujeita e pela eficácia que irá ou não ter.

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Algum esforço certamente mas pouca inspiração, é o que ocorre dizer a propósito dos primeiros suportes de propaganda política que doravante irão povoar os territórios concelhios.

Muitos actos eleitorais volvidos, parece esgotada ou num impasse, a capacidade dos actuais intérpretes políticos em inovar, em surpreender pela positiva, quebrando o círculo vicioso «em que se faz e faz deste modo, porque se tem de fazer e é assim que se tem feito ao longo dos anos» – as eternas incertezas e angústias no momento de decidir, pelos vistos nem sequer permitem que se decalque dos bons exemplos.

Chegaram assim os primeiros cartazes de grande dimensão, vulgarmente designados por outdoors, ritualizando o início da disputa tal como as carrinhas de som debitam a chegada do circo às localidades ou os amoladores anunciam a sua inconfundível presença.

Abertas as hostilidades e porque «quem não aparece, esquece», aí estão os tradicionais meios de criação de visibilidade pública dos candidatos e respectivas mensagens, em locais de grande circulação – com o correr do tempo outros surgirão, todos com o objectivo de contribuir para a identificação, incorporação e apropriação dos que e quem se propõe, impulsionando a criação de uma dinâmica com reflexos no processo de escolha.

A aparente obsessão pelo recurso desproporcionado a estes suportes tem algo a ver com a lógica de organização e funcionamento dos partidos políticos, que se impõem a si mesmos a gestão das candidaturas em tempos muito curtos o que representa a falência ou a impossibilidade prática de produzir e desenvolver estratégias sólidas, adequadas, e originam um trilema de difícil solução:

- Se se instalam muitas estruturas de painéis, mudando frequentemente de cartazes, como é que se assegura a apreensão homogénea das mensagens e, sobretudo como é que se explica e faz aceitar a aparente exibição de riqueza e de gastos avultados, perante uma situação generalizada de crise?;

- Ao invés, se os painéis forem poucos e os cartazes não rodarem ou rodarem pouco, o mais certo é degradarem-se sem reposição imediata e, progressivamente, apenas se tornarem notados por esta lacuna que transporta associada a si, a ideia de falta de dinâmica e de capacidade associada para as funções a que a candidatura se reporta;

- Por outro lado, se houver quem prescinda ou não disponha de meios para recorrer a este tipo de suportes, em que condições é que vai competir, ao entregar aos seus adversários e logo à partida, a ocupação iconográfica substancial do espaço público?

A gestão dos custos de uma campanha eleitoral é um desafio efectivo, pela disponibilidade de dinheiro a que obriga, pelas limitações legais a que está sujeita e pela eficácia que irá ou não ter, valendo a pena recordar o ABC da publicidade: garantir a atenção, o interesse e o desejo de forma a induzir à acção.

Tudo sugere que dinheiro vai havendo, ampliando o interesse em centrar a observação nas mensagens que vão sendo produzidas, sem embargo de poder ainda ser prematuro tentar descortinar o fio condutor de algumas delas. Deixando de parte alguns exemplos que já mereceram a atenção dos media, vejamos o que por aí vai: «Com os portugueses? para construir o Futuro», parece ser a mensagem geral do partido Socialista para estas autárquicas; secundarizando a vacuidade do conceito de Futuro aplicado desta forma, a perplexidade toma forma com a primeira parte do slogan – com os portugueses? Mas com quem é que havia de ser? Com os espanhóis ou os franceses??

Afastando o esboço de ironia, o problema é mais fundo – subjacente a esta expressão, a separação entre partido e sociedade, como se as estruturas políticas não sejam uma emanação dessa mesma sociedade, reconhecendo implícita e ingenuamente que os partidos e a política são mundos à parte?

Já a Coligação Democrática Unitária optou por «Trabalho, honestidade e competência», mas o que é que se quer afirmar com isto? Sugerir que os seus candidatos são mais capazes e sérios do que os outros, traz um pequeno problema associado: como é que se pode afirmar à partida aquilo que só se pode avaliar à chegada, isto é no fim do mandato?

Até que ponto o exercício político condiciona a natureza humana?

Trabalho, todos os autarcas o produzem, competência, além de subjectividade tem algo de tecnocrático que destoa neste contexto, a honestidade, bem, a honestidade está muito para além da corrupção e de outros ilícitos de natureza criminal, há certamente muitas pessoas e de entre elas políticos, que não se atrevendo a pisar o risco da legalidade, são multifacetadamente desonestos e nem por isso são caucionáveis.

Há aqui qualquer coisa do antigamente que não foi acautelado de forma devida – será que a inspiração veio do «pobres mas honrados»?

A actividade política, como se sabe, não é propriamente um modelo de virtudes a enaltecer, mas a moralidade pública não se enaltece com chavões, antes explicando preto no branco, como é que se vai proceder para salvaguardar os valores que se evoca.

No desconhecimento até à data da mensagem generalista do Partido Social Democrata para esta campanha, surge em Lisboa a imagem plácida de Carmona Rodrigues, com um fundo em tudo semelhante ao utilizado por Cavaco Silva há quatorze anos atrás (!), uma mescla de figurantes inexpressivos, surpreendentemente à esquerda e em baixo, com um sósia envelhecido de António Guterres, vá-se lá perceber porquê?

Para o Bloco de Esquerda, Lisboa é gente e apetece acrescentar? e tudo isto é fado, ou, de uma forma mais refinada «se isto não é para o povo, onde é que está o povo?», mas também há «projectos com princípio, meio e fim» e «soluções para todos».

Eleições para quatro anos? Diferenciações programáticas e de atitude?

Onde estão os bons fotógrafos, os gráficos e os criativos de qualidade?

Que é feito da aliança entre o rigor e a criatividade, enunciada há tantos anos atrás por Seguella, um dos gurus da propaganda política?

Definitivamente, estamos na era do vazio, também neste domínio o país empobrece a olhos vistos.

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