Manuel  Falcão
Manuel Falcão 06 de setembro de 2019 às 11:21

Casamentos

O dado curioso das próximas eleições legislativas é que só existe um candidato a primeiro-ministro. Ninguém mais se candidata à função, os outros concorrentes apenas procuram votos e lugares clientelares no novo Parlamento.
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"Ouçam muitos, mas falem só com alguns."
William Shakespeare

Casamentos
O dado curioso das próximas eleições legislativas é que só existe um candidato a primeiro-ministro. Ninguém mais se candidata à função, os outros concorrentes apenas procuram votos e lugares clientelares no novo Parlamento. António Costa ainda não sabe se vai ter de arranjar companhia ou se conseguirá ser o noivo que vai sozinho ao altar, prescindindo de arranjinhos. Numa entrevista recente deu umas sapatadas no noivado com o Bloco e, no primeiro debate da televisão, mostrou-se pouco entusiasmado em namorar o PCP, mas cuidadoso para não o afastar. António Costa é um político inteligente, um hábil manobrador que gere com táctica os arrufos e os assomos de paixão com os seus parceiros. Sabe perfeitamente que no dia a seguir às eleições será ele a ditar as regras do jogo que vai ser formar novo governo e sabe também que ninguém estará em condições de lhe tirar esse prazer. Há quatro anos fez o namoro com Bloco e PCP às escondidas para garantir o poder no dia seguinte às eleições, espantando Passos Coelho, que havia sido o mais votado. Agora, às claras, espera que o eleitorado lhe dê a possibilidade de se separar da geringonça, namorando caso a caso com quem mais lhe convier. A coisa já esteve mais longe de acontecer. E para tirar o Bloco da equação não será o PCP a complicar a vida a António Costa.

Semanada

Até agora, durante o Verão, foram detectados 31 mil condutores em excesso de velocidade e outros 2.980 a utilizar telemóvel enquanto guiavam de Janeiro a Agosto, morreram 312 pessoas em acidentes de viação; mais de 43 mil portugueses foram apanhados em excesso de velocidade em Espanha mais de metade das consultas de neurocirurgia superou o tempo máximo de resposta considerado clinicamente aceitável o envio pelo SNS de doentes para cirurgias no privado subiu 96% em 2018 as dívidas de hospitais do Serviço Nacional de Saúde ao Instituto do Sangue ultrapassam os 70 milhões de euros e ameaçam o seu funcionamento a despesa pública com subvenções vitalícias abrange 308 políticos que custam 6,1 milhões de euros por ano o PS prevê gastar 2,4 milhões de euros na próxima campanha eleitoral, o PSD cerca de dois milhões, a CDU prevê 1,2 milhões, o Bloco quase um milhão e o CDS cerca de 700 mil euros José Sócrates classificou António Costa como "insuportável" a aplicação informática para autorização de queimadas registou mais de 300 mil pedidos durante os primeiros sete meses do ano, dos quais 96% foram autorizados o Tribunal de Contas alertou que a desertificação dos solos afecta dois terços do território e denunciou que os programas de combate à desertificação estão a ser mal executados pelo Governo que obviamente o desmente; um inquérito recente indica que mais de metade dos portugueses (53,5%) diz que a crise não passou e afirma que o desemprego está no topo das suas preocupações.

Dixit
"Desejo firmemente que os ‘debates’ televisivos tenham a audiência que merecem: a pior, abaixo da do pior telejornal. Seria um magnífico sinal de alguma maturidade cívica numa sociedade tão infantil e infantilizada por uma oligarquia política e comunicacional tropical."
João Gonçalves, Jurista

Sobre as cidades
A edição de Setembro da revista "Monocle" vem com muita leitura. O tema de capa aborda a evolução da mobilidade entre a casa e o trabalho e aponta ideias para o replaneamento de cidades num futuro próximo, indicando Helsínquia como uma das mais avançadas, sublinhando que já tem em curso um plano com objectivos traçados até 2050. Os filisteus que habitam na Praça do Município em Lisboa, de todos os partidos aliás, fariam bem em ler este artigo e tomar notas. Passando para outro tema, a cultura, uma das cidades em foco é a norte-americana Tulsa, que é protagonista de um ressurgimento devido a generosas dádivas de fortunas feitas no petróleo e que desde os anos 30 do século passado contribuíram para edifícios arquitectonicamente marcantes da cidade. Uma das actividades mecenáticas mais recentes tem que ver com a recuperação do Arts District da cidade e com a compra dos arquivos de Woody Guthrie de Bob Dylan pela Universidade de Tulsa, um investimento que ultrapassou os 20 milhões de dólares em grande parte financiado por uma Fundação privada - coisas que a legislação americana permite e incentiva e que aqui são maltratadas. Com ligações claras a esta área está um dos mais interessantes artigos da edição e que tem que ver com a gestão de museus, baseado em entrevistas com responsáveis de instituições em Berlim, Taipé, Nova Iorque e Londres. Aqui estão mais umas páginas que podem ser úteis a algumas pessoas envolvidas no tema em Portugal. Por falar nisso a edição inclui oito páginas de conteúdos patrocinados pelo Turismo de Portugal com 50 lugares essenciais a visitar, de restaurantes a museus, passando por praias ou lojas. Serralves é que deve ter ficado aos saltos porque a sua localização vem… em Lisboa.

Digressão artística
"Contra a Abstracção" é uma exposição colectiva de obras da Colecção da Caixa Geral de Depósitos, comissariada por Sandra Vieira Jürgens, que tem percorrido diversas cidades ao longo dos últimos meses com várias versões de diferentes obras, mas mantendo um núcleo central de artistas em todos os locais onde já passou. É uma boa forma de levar a colecção do banco público para fora das austeras portas do seu edifício-sede em Lisboa. A exposição apresenta uma selecção de obras, de diferentes artistas (cerca de 50, a maioria portugueses) e suportes (da pintura à fotografia, passando pelo vídeo, escultura e instalação). O título da exposição evoca o seu tema central - que é o abstracto. Estão representados artistas como Álvaro Lapa, Ana Hatherly, Ana Jotta, Ângela Ferreira, Ângelo de Sousa, António Ole, António Palolo, Bartolomeu Cid dos Santos, Ernesto de Sousa, Espiga Pinto, Fernanda Fragateiro, Fernando Calhau, Joana Vasconcelos, João Paulo Feliciano, José Loureiro, José M. Rodrigues, Júlia Ventura, Kees Scherer, Leonor Antunes, Luís Demée, Man, Manuela Almeida, Manuel Viana, Nadir Afonso, Pedro Cabrita Reis, Pedro Casqueiro, Pedro Portugal e Rui Sanches, entre outros. A exposição está neste momento patente no Centro de Artes de Sines até 27 de Outubro. Concebido por Francisco e Manuel Mateus, o Centro de Artes de Sines é considerado como um edifício marcante da arquitetura portuguesa contemporânea. A exposição está aberta diariamente entre as 14h30 e as 20h00, incluindo ao fim-de-semana.

Arco da velha
Catarina Martins anunciou que "o programa eleitoral do Bloco é essencialmente social-democrata".

Novas canções americanas
Após uns anos sem gravar, Lana Del Rey surge com o seu quinto álbum de originais que chama para o título Norman Rockwell, um dos nomes incontornáveis da ilustração norte-americana, conhecido pela forma como retratou cenas do quotidiano do sonho americano. "Norman Fucking Rockwell" é o nome do novo disco com 14 canções que mostram uma Lana Del Rey mais madura e mais afirmativa, a desafiar as palavras e a exibir a sua sexualidade, mas também a sua opinião sobre a América deste tempos. O álbum é um somatório de emoções, alternadas com opiniões e afirmações. A faixa inicial, "Venice Bitch", é uma melodiosa evocação de jogos de sedução e de sexo que se prolonga durante quase oito minutos e que antecede a forte "Fuck It I Love You", muito autobiográfica, a abrir caminho para o centro geográfico deste álbum que é a Califórnia, evocada numa canção homónima em que o amor perdido é tema, aliás como em "Love Song". Há canções cujos títulos são já um programa, como "The Next Best American Record" ou o também muito pessoal "Hope Is A Dangerous Thing For A Woman Like Me To Have - But I Have It", onde até cabe uma referência a Sylvia Plath, uma poetisa e escritora norte-americana conhecida pelo seu estilo confessional - um ponto de contacto com este disco de Lana Del Rey. Há ainda uma piscadela a Neil Young, a quem roubou o nome da uma canção, "Cinnamon Girl", o exibicionismo de "Bartender" e aquela que é talvez a mais forte canção do disco, "Doin’ Time", que começa por uma evocação do standard "Summertime" e que subitamente parte para outros territórios. No disco há numerosas referências à América de Trump, críticas presentes em quase todas as canções num contraste propositado com a ideia de um paraíso idílico do sonho americano que Norman Rockwell retratou. É este conjunto de citações e de cruzamentos de fontes e influências que faz a força deste disco. CD disponível no Spotify.

Voando
Andar de avião no Verão dá cabo da paciência a um santo: filas infindáveis, aeroportos cheios, controlos de segurança demorados. Se as coisas correrem bem, podemos contar com uma hora entre a entrada no aeroporto e a chegada à porta de embarque. Se falarmos do aeroporto de Lisboa, à hora de ponta, a coisa pode ser ainda pior. Quem está na cidade exaspera-se com o barulho causado pelos aviões, quem está no aeroporto enerva-se com as filas e com a espera. Uma vez chegados à porta de embarque resta aguardar que o voo não esteja atrasado, uma raridade nos tempos que correm, sobretudo na TAP. Depois, uma vez no avião, resta esperar que ele não tenha perdido a sua hora de saída e seja obrigado a ficar à espera de vez. Foi o que me aconteceu num recente voo da Vueling para Barcelona, em que estive quase três quartos de hora à espera que o avião pudesse levantar. O comandante, no entanto, não foi de modas e explicou aos passageiros que, embora o aeroporto de Lisboa fosse já manifestamente insuficiente para o movimento que tem, desta vez a culpa não tinha sido da torre de controlo. Explicou que o atraso se deveu ao handling, classificando-o de desleixado e incompetente. Disse que o avião até tinha chegado adiantado ao aeroporto, mas a equipa de handling atrasou-se uma hora e comprometeu todo o resto da operação. Insinuou que isto era frequente com o handling no aeroporto da capital. E os passageiros, maioritariamente estrangeiros, que enchiam o Airbus A320, ficaram assim com uma bela ideia do país.

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