Carlos Almeida Andrade
Carlos Almeida Andrade 09 de agosto de 2013 às 00:18

Certezas e ideias feitas

Seria muito útil que o debate político e económico em Portugal se centrasse nos factos relevantes, porque – inundados por comentários superficiais e com "agendas" particulares – parece que, de novo, nos estamos a esquecer do essencial

O debate, a crítica, o escrutínio e a apresentação de visões alternativas são essenciais numa democracia. Infelizmente, o debate político e económico em Portugal sofre de falta de rigor, com a argumentação muitas vezes guiada pela pequena política, pela jogada do dia ou por ajustes de contas pessoais. Este debate sofre, também, com uma inflação de "comentadores" (mais quantidade, menos valor) e com a ausência de memória de quem comenta e de quem escrutina – um facto que leva a que, muitas vezes, os "comentadores" entrem em contradição com opiniões que defenderam anteriormente ou com factos que, convenientemente, esquecem. E são ainda muito prejudiciais as "certezas" e ideias feitas, muitas vezes propagadas por um enorme amadorismo e falta de rigor.


Um exemplo deste tipo de problema é a citação abusiva, incompleta, selectiva e errada, de "relatórios" de instituições como o FMI, a OCDE ou o Banco de Portugal, para sustentar a opinião do momento, como se viu recentemente, por diversas vezes, com o caso dos "multiplicadores". Hoje em dia, o vento corre a favor de quem diz mal da consolidação orçamental. Até há dois ou três anos atrás, qualquer comentador encartado que se prezasse discorreria, na televisão ou nos jornais, com ar sério e grave, sobre a insustentabilidade do rumo da economia portuguesa, com as trajectórias crescentes da dívida pública e da dívida externa. Hoje, com os inevitáveis custos económicos e sociais decorrentes do ajustamento em curso, muitos dos mesmos comentadores arrasam os esforços de reequilíbrio da economia portuguesa que antes defendiam (quando não custava ter essa opinião). É neste contexto que, muitas vezes, aparecem as citações abusivas e selectivas dos relatórios do FMI ou Banco de Portugal, por exemplo, sobre os "multiplicadores". Uma das "verdades" e "certezas" que parece ter-se instalado é que é um erro Portugal ter seguido, desde 2011, uma política de redução dos equilíbrios das contas públicas e externas, citando-se, como justificação, a queda do PIB e o aumento do desemprego. Ora, infelizmente quem tem esta opinião continua a não perceber a verdadeira origem dos problemas da economia portuguesa, ou a verdadeira razão das quedas do PIB e do desemprego. Por cada estudo que diz que a consolidação orçamental é contracionista, é possível encontrar outro estudo que diz o contrário. Mas, mais importante que isto, é o facto de Portugal enfrentar, neste momento, circunstâncias específicas que tornam esses estudos e conclusões pouco relevantes, quer num sentido, quer noutro. Estas circunstâncias incluem, por exemplo, uma quebra nos mecanismos de transmissão da política monetária, uma realocação estrutural dos recursos produtivos e, até há pouco tempo, uma recessão na procura externa. Assim, quem tem grandes certezas a este respeito terá muito pouco de útil a acrescentar ao debate económico em Portugal.

Mas há algumas coisas que sabemos. Sabemos, por exemplo, que Portugal adoptou uma política orçamental expansionista em 2009, com os resultados que estão à vista. Sabemos também que, sem restaurar a confiança de quem financia a actividade económica, não será possível financiar a actividade económica, isto é, não será possível ter crescimento ou criação de emprego de forma sustentada (a recente crise política e a imagem de hesitação e incerteza passada para fora traduziram-se em custos muito elevados a este nível). E sabemos que a economia portuguesa deixou de crescer ainda antes da crise da dívida soberana, pelo que as principais causas da estagnação não se encontram no Programa de Ajustamento em curso, mas sim em factores estruturais que o antecedem (e.g. falta de adaptação à globalização, ao novo papel das economias emergentes e às transformações demográficas; excessivo peso dos sectores não transaccionáveis, etc.), que exigem soluções estruturais e demoradas, independentemente de a Europa poder fazer mais para nos ajudar. Seria muito útil que o debate político e económico em Portugal se centrasse nos factos relevantes, porque – inundados por comentários superficiais e com "agendas" particulares – parece que, de novo, nos estamos a esquecer do essencial.

Economista Chefe do BES e Docente Universitário
Assina esta coluna mensalmente à sexta-feira

Marketing Automation certified by E-GOI