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Leonel Moura leonel.moura@mail.telepac.pt 08 de Junho de 2016 às 19:55

Chico-espertices

O mínimo que se pode dizer é que António Costa está em forma. Tem concretizado várias impossibilidades, driblado muitos obstáculos, avançado com propostas de futuro.

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Há quem não entenda a verdadeira revolução política que se deu no nosso país com o acordo à esquerda. Sobretudo por parte do Partido Comunista. Há alguns meses ninguém diria que era possível ver o PC viabilizar um governo do PS. Mete medo a alguém? Sim, a quem não está a ver bem o filme. Por uma vez o Parlamento está completo. Todos participam e isso, em si mesmo, é altamente positivo. Pelo menos para quem é realmente democrata.

 

Mas a "obra" de Costa não fica por aí. Com o seu otimismo e crónica boa disposição atirou PSD e CDS para posições insustentáveis. O de partidos bota-abaixo. A diferença de atitude é chocante para a maioria dos portugueses. De um lado os que querem andar em frente, do outro os que só sabem anunciar e desejar catástrofes.

 

Veja-se o caso das eventuais sanções a Portugal. Está claro quem defende o país e quem, com desculpas esfarrapadas, o quer prejudicar. A ideia de avançar no Parlamento com uma moção contra as sanções criou um enorme problema aos partidos de direita. Primeiro foram contra, depois, percebendo o que isso significaria para os cidadãos, apressaram-se a também apresentar o seu próprio projeto. É uma chico-espertice que vale o que vale.

 

Mas não é só em Portugal que estas coisas sucedem. Basta pensar no referendo no Reino Unido. Em 2015, na campanha eleitoral, David Cameron navegou o discurso antieuropeu prometendo fazer um referendo sobre a União Europeia. Pretendeu sossegar as hostes conservadoras e mostrar ao povo que era o homem certo para tratar dos assuntos do país. Venceu as eleições. Com a ameaça do referendo negociou um conjunto de regras excecionais, muitas contra o espírito e a letra dos tratados europeus. Entre elas os cidadãos de primeira, os ingleses, e os de segunda, todos os outros. Na malfadada negociação, os dirigentes da Europa, que se vergam aos grandes e são intransigentes com os pequenos, cederam. Mas o tempo passa e o referendo aí está para o próximo dia 23. O resultado é imprevisível. Perante a hipótese séria de vencer o Brexit, ou seja, a saída, David Cameron anda aflito. Lançou ventos colhe tempestades. O resto da Europa também treme. E até Obama, em fim de jornada, se mostra muito preocupado com essa possibilidade. Significaria o isolamento europeu do Reino Unido, o maior aliado dos Estados Unidos, e por essa via um link fundamental para múltiplos negócios.

 

Qualquer resultado, fruto da evidente chico-espertice, será mau ou péssimo. Sobretudo para o próprio Reino Unido em caso de saída. Não por acaso nestas últimas semanas têm fugido biliões de libras da economia britânica para locais menos turbulentos. As exportações serão fortemente afetadas, os impostos provavelmente terão de subir e o nível de vida idem. Mas as consequências serão também a nível dos britânicos que perderão o estatuto de cidadão europeu. Os reformados não poderão continuar a beneficiar de muitas regalias quando se mudam para o Sul de Portugal ou de Espanha, por exemplo. E tudo isto em nome do medo dos emigrantes e refugiados e um maior controlo das fronteiras. Alguém fez mal as contas.

 

Não sei se a Europa ficará pior com a saída do Reino Unido. Talvez até fique melhor com a chicotada psicológica, política e económica. Estão a precisar. E, bem vistas as coisas, os britânicos nunca quiseram realmente ser plenamente europeus.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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