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Manuel Caldeira Cabral 30 de Setembro de 2014 às 00:01

Ciência, inovação e competitividade. Estamos no caminho certo?

A capacidade científica e tecnológica é cada vez mais vista como um factor-chave da competitividade.

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A Inovação surge como o centro da estratégia de competitividade europeia – Europa 2020, que Portugal diz subscrever, apesar da despesa em ciência e inovação ter, nos últimos três anos, caído mais do que a despesa corrente primária do Estado.  

 

Na década e meia anterior a 2010, a despesa em investigação e desenvolvimento (I&D) subiu de 0,5% do PIB, em 1995, para 0,8% em 2005, atingindo os 1,6% do PIB, em 2009 e 2010. Desde 2011 que o investimento em I&D está a cair quer em valor quer em percentagem do PIB.

 

O aumento do investimento em ciência e inovação foi acompanhado por um forte crescimento do número de doutorados e da quantidade e qualidade das publicações científicas das universidades portuguesas, que começaram a aparecer nos rankings das melhores do Mundo de forma consistente depois de 2007. Portugal foi mesmo o segundo país do Mundo com maior acréscimo de universidades nos rankings internacionais.

 

O aumento de recursos teve resultados visíveis no aumento da produção científica. Mas será que deu origem a resultados económicos da mesma dimensão?

 

Encontrar uma resposta a esta questão foi o desafio que me foi lançado pela Fundação Calouste Gulbenkian, para a discussão na conferência Afirmar o Futuro – Políticas Públicas para Portugal, que terá lugar nos dias 6 e 7 de Outubro na sede desta fundação.

 

A resposta não é simples. Na mesma década em que se verificaram fortes aumentos nas publicações científicas, o número de patentes por milhão de habitantes, manteve-se em Portugal como um dos mais baixos da UE, enquanto as exportações de produtos de alta tecnologia perderam peso no total das exportações portuguesas. Estes resultados motivaram algum do cepticismo que se pode encontrar em alguns dos diagnósticos sobre a ligação entre universidades e empresas em Portugal.

 

No entanto, podemos questionar se estes são os indicadores mais relevantes para aferir o valor criado pela transferência de tecnologia e inovação na economia portuguesa. Na indústria química e farmacêutica, as patentes são um resultado central do processo de inovação. Mas noutros sectores, como o software, turismo, mobiliário, papel, vinho, vestuário ou calçado, a inovação e transferência de tecnologia podem ser determinantes para melhorar a competitividade e alterar a forma como as empresas se inserem nas cadeias internacionais de valor, mas, em geral, esta inovação não se materializa em patentes.

 

É então importante fazer uma análise mais ampla. Não é difícil encontrar dados que apontam para uma evolução positiva. A alteração da estrutura de exportações, o saldo positivo da balança tecnológica, a melhoria de qualidade e valor dos produtos exportados registada em sectores tradicionais, sugerem que se verificou uma importante evolução da capacidade tecnológica em vários sectores da economia portuguesa, onde as PME surgem nos inquéritos internacionais como particularmente abertas à inovação.

 

É difícil estabelecer qual o papel do sistema científico e tecnológico em cada um destes aspectos, e em particular qual o contributo directo e indirecto das universidades para a evolução positiva verificada.

 

Nos últimos dez anos, praticamente todas as universidades desenvolveram a área de transferência de tecnologia, multiplicaram o número de projectos de I&D com empresas, abriram espaço ao desenvolvimento de centenas de novas empresas de base tecnológica e reforçaram os laços com centros tecnológicos sectoriais, que hoje desempenham um papel fundamental na qualificação e certificação, e na inovação das empresas de sectores como o calçado, o vestuário ou o de componentes para automóveis.

 

Será que estas melhorias se reflectiram num aumento de competitividade do país?

 

Os empresários que participam no Relatório de Competitividade do World Economic Forum parecem acreditar que sim. O quadro em baixo mostra a evolução do número de ordem que Portugal ocupa num conjunto de 12 indicadores agregados (pilares) e de 5 indicadores de detalhe (dos 114 que WEF utiliza).

 

Entre os indicadores agregados, o que teve melhor evolução foi o referente ao ensino superior, em que Portugal avançou 13 posições entre 2008 e 2014. Mas se a qualidade de ensino e das instituições de ensino superior melhorou, também nos indicadores de inovação e de capacidade tecnológica das empresas se verificou uma evolução positiva. Nos 5 indicadores agregados em que o país tem uma posição mais favorável que a do indicador global, três referem-se à área de ciência e tecnologia e todos melhoraram.

 

Na percepção dos empresários, Portugal evoluiu positivamente tanto na qualidade do seu ensino e na capacidade das suas instituições científicas, como nos indicadores de inovação ou de capacidade e prontidão tecnológica das empresas.

 

Será que há aqui uma causalidade. Na opinião destes empresários, a colaboração entre universidades e empresas também evoluiu muito positivamente. Portugal surge hoje em 23.º posição, uma forte melhoria, que deve servir de reconhecimento do esforço já feito, e de incentivo a continuar a aprofundar e explorar as oportunidades de criação de valor que a ponte entre conhecimento e inovação empresarial apresenta.

 

Professor no departamento de Economia da Universidade do Minho

 

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