Ulisses Pereira
Ulisses Pereira 26 de fevereiro de 2018 às 10:52

Com uma bola e os mercados na mão

Se dedica pouco tempo aos mercados, não pode ser um grande "trader". Um grande atleta não treina de vez em quando.
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Desporto e bolsa são a minha vida. Pratiquei andebol 26 anos, sou treinador há 15 anos e actualmente sou seleccionador nacional de andebol feminino. Mas, além disso, sou completamente viciado em desporto, acompanhando tudo o que mexe e agora até o padel entrou em força na minha vida, jogando diariamente nos últimos dois anos. Desde que me conheço, não consigo ficar indiferente a qualquer notícia ou evento desportivo. Se alguém me perguntasse do que não abdicaria na vida, desporto seria a minha resposta imediata.

Já jogava andebol e ainda não fazia a menor ideia do que era a bolsa. Mas a minha mãe conta-me (sim, tenho uma memória tão fraca que me envergonha em muitas situações) que aos 11/12 anos já estava de cócoras na sala a ler as cotações das acções no jornal diário. A partir daí, foram seis anos até fazer a minha primeira compra em bolsa e mais alguns anos até me tornar gestor de carteiras e analista de mercados.

O facto de ter treinado já inúmeros atletas e de dar "coaching" a muitos investidores, faz com que seja inevitável estabelecer um paralelismo entre as duas actividades. Quanto mais tempo passo nestes dois mundos mais aspectos em comum encontro entre os "traders" e os jogadores. Treiná-los é sempre um enorme desafio, seja num pavilhão desportivo seja à frente de um ecrã.

Lamento mas, se dedica pouco tempo aos mercados, não pode ser um grande "trader". Nenhum grande atleta treina de vez em quando. Para se chegar a um nível de excelência, é necessário treinar milhares de horas - a fronteira das 10 mil horas é apontada por muitos como condição necessária para um atleta de excelência. Não tenho dúvidas em apontar também esse valor para os "traders". Não falo apenas das horas dedicadas a acompanhar a evolução das cotações, até porque não me choca que alguns acompanhem apenas a abertura e o fecho. Mas quantas horas por semana dedica a rever os seus negócios, contrapondo os argumentos que o levaram a abrir uma posição como aquela que se veio a verificar no futuro? Quantas horas por semana investe a analisar gráficos ou os dados fundamentais das empresas? Ronaldo não se tornou um grande atleta de um momento para o outro. Foram precisas milhares de horas de trabalho, longe das câmaras e do "glamour". Nos mercados, o sucesso também não acontece instantaneamente, há que trabalhar. Muito.

Um bom atleta sabe reconhecer o seu momento. Há alturas em que tudo o que faz corre bem e ele pede a bola para marcar golos, cestos ou outra coisa qualquer. Nos momentos em que está a errar muito, decide passar mais a bola e jogar mais para os outros. Um "trader" tem momentos em que se sente um verdadeiro Midas, em que qualquer acção que toca se transforma em ouro. Isso acontece porque está a "ler" o mercado na perfeição e deve aproveitar esses momentos para negociar bastante. Mas também há outras alturas, em que o inverso sucede e as perdas avolumam-se. Nessa altura, o "trader" devia manter-se mais tempo sem negociar, até estar mais sintonizado com o mercado. Mas muitos fazem exactamente o oposto, negociando muito mais para tentar recuperar o que perderam.

Um atleta de topo sabe que precisa de um treinador para melhorar. Aqueles que aspiram a serem "top traders" ambicionam encontrar um "coach" que os faça ser melhores.

Muitos defendem que os atletas e os "traders" devem eliminar as emoções do seu desempenho. Discordo. Acredito que em qualquer uma dessas actividades é importante sabermos dominarmo-nos, mas sem perdermos o rasgo de emoção que nos faz atingir mais rapidamente o estado de excelência de concentração. Alguém acha que se Nadal ou Ronaldo fossem mais frios dentro do campo teriam melhores resultados? Eu não acredito, pois muito do seu sucesso passa por conseguirem colocar as emoções ao serviço do seu sucesso, potenciando ainda mais o seu rendimento e os "traders", por mais controlados que tenham de ser, não podem eliminar por completo as emoções. Ainda não vi cubos de gelo na lista de "top traders".

Os grandes atletas jogam em função do contexto em que estão inseridos. A leitura de jogo é uma das características dos melhores praticantes das modalidades colectivas que se conseguem adaptar às diversas circunstâncias do jogo. Os "traders" têm de ter essa capacidade de, quais camaleões, adaptarem a sua forma de negociar às diferentes condições que enfrentam. Por exemplo, quando alguém negoceia um mercado muito volátil tem de o fazer de forma diversa de um mercado pouco volátil. Muitos "traders" falham por não entenderem que têm de se adaptar às condições de mercado.

"Falhei mais de 9000 lançamentos na minha carreira. 26 vezes fui escolhido para fazer o lançamento decisivo e falhei. E foi por causa disso que tive sucesso." Esta frase de Michael Jordan reflecte bem o pensamento de um campeão. Ele sabia que, para marcar os cestos da vitória que iriam ficar para a história, teria de falhar outros. O erro faz parte do jogo e os atletas de topo têm perfeita noção disso. Não o temem. Nos mercados, o pensamento tem de ser o medo. Quem não negoceia com medo de falhar ou fica muito perturbado com o erro tem o caminho para o insucesso traçado. O erro e as perdas fazem parte da vida de quem negoceia nos mercados e os melhores do mundo erram imenso. Não, não estou a exagerar.

Por muitas diferenças que exista entre os atletas de topo e os "traders" de elite, a abordagem mental de ambos é muito semelhante. E, por favor, nunca se lembre de culpar os árbitros. Esse é o género de atitudes que só os derrotados têm. No desporto e na vida.


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