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Combater a “barata tonta” dentro de si

Não é pecado rir, nem sequer encontrar um ângulo divertido na maior tragédia. Se conseguir dar uma gargalhada com os outros (mesmo virtual), melhor ainda: cria laços, devolve-nos a sensação de pertença e fomenta a compaixão. Depois de rir e chorar, vai ver que trabalha melhor.

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Por estes dias, ando mais barata tonta do que nunca. Começo a tirar a louça da máquina e, de repente, aí pelo sexto prato, sinto um impulso incontornável de ir pôr uma torrada a fazer, mas antes de a torrada saltar, já estou à frente do computador para acabar um texto que deixei a meio. No último parágrafo, sou assaltada por um ataque de fome, lembro-me da torrada - comi-a ou não? -, e percebendo pelo buraco no estômago que provavelmente não, precipito-me de novo para a cozinha, não sem pelo caminho ter despejado uma gaveta de camisolas que é urgente reorganizar. À segunda trinca, ligo a televisão, e ao ver os números do dia, perco o apetite e, a hiperventilar, encontro inspiração para acabar o artigo que interrompi momentos antes.

Podia continuar a fazer-vos um relato das minhas deambulações em tempo de pandemia, mas suspeito de que não são muito diferentes das vossas. Mesmo quando procuramos manter a rotina do trabalho, mesmo quando temos a sorte de ter em que empregar os neurónios, a nossa massa cinzenta parece envolta num nevoeiro denso, que custa a dissipar.

Com quase três semanas de quarentena, já percebi algumas coisas que, talvez, lhe possam ser úteis - e se não forem, por favor, finja que são, porque esta é a minha maneira de fazer face ao sentimento de impotência com que esta crise sobrecarrega os que não têm lugar na "linha da frente". Aqui vão:

1.Estado de alerta. Dificilmente a meditação ou o ioga (pelo menos, o de principiantes) conseguem enganar o cérebro: os tempos estão perigosos, e não vale a pena dizer-lhe o contrário. Face a um perigo iminente, estamos programados para nos mantermos vigilantes, prontos a fugir do leão, e não para nos concentrarmos num relatório e contas, deixando que nos apanhe desprevenidos. Posto isto, dê-se a si mesmo um desconto. Pelo menos de 30% no índice de produtividade.

2. Tarefas a curto prazo. Comece o dia com tarefas que se conseguem cumprir rapidamente. Faça uma lista de umas tantas, e "clique" as que completou. Se estiver com sorte, a satisfação de começar e acabar qualquer coisa vai dar-lhe o shot de adrenalina de que precisa para passar às mais complicadas, e uma vez em "modo de foco" é mais fácil.

3. Não mande um mail, telefone. Habitualmente recomendaria o contrário, mas neste momento precisamos de ouvir a voz das outras pessoas, de perceber que não estamos sozinhos no planeta. Além do mais, conversar desperta-nos e da troca de ideias nascem outras, talvez até um novo projeto.

4. Crie uma linha de horizonte. É insuportável trabalhar para o boneco. Se sentimos que aquilo em que nos empenhamos poderá já não fazer sentido no mundo pós-covid, é inevitável deixar cair os braços, por isso esforce-se por não perder muito tempo com visões catastróficas. Se há alguma coisa que esta tragédia nos ensinou é que controlamos pouco, e perdemos muito tempo a preocupar-nos com cenários que podem nunca acontecer.

 

5. Permita-se ter pena de si próprio. É claro que quem está numa unidade de cuidados intensivos tem menos sorte do que nós; é evidente que quem perdeu alguém querido tem muito mais razões para estar desesperado, e ninguém duvida de que aqueles que estão sem emprego, ou veem as suas empresas destruídas, debatem-se com uma situação bem mais complicada, mas, dito isto, conceda-se o direito a lamentar os seus projetos que foram por água abaixo, as suas expectativas desiludidas, até - sacrilégio dos sacrilégios - aquelas férias da Páscoa que planeava há tanto tempo (e que até já tinha pago). Faça o luto, e arrume o assunto.

 

6.Não tenha vergonha do humor (mesmo do mais negro). Não é pecado rir, nem sequer encontrar um ângulo divertido na maior tragédia. Se conseguir dar uma gargalhada com os outros (mesmo virtual), melhor ainda: cria laços, devolve-nos a sensação de pertença e fomenta a compaixão. Depois de rir e chorar, vai ver que trabalha melhor.

 

Jornalista

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