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Luis Macedo e Sousa 26 de Novembro de 2004 às 13:59

Como perder eleições sem glória nem proveito

Um presidente de município não se pode comportar como um náufrago, imerso em papelada que não tem tempo para ler, que não é convenientemente tratada e em serviços que não controla.

A história, verídica, começa assim:

«Lateralmente à sua casa e confinante entre prédios, existe uma pequena língua de terreno, propriedade municipal.»

O abandono e a incúria humana, levam a que o matagal ali floresça, acompanhado de detritos de toda a espécie.

Uma, talvez duas vezes por ano, funcionários por ali aparecem e desbastam o plantio selvagem, onde resistem algumas oliveiras a assinalar ruralidade passada.

O homem, toma-se de brios e escreve ao Presidente do seu município – com a prudente cautela dos tarimbados, questiona-o em termos depurados, sobre se aquele terreno pode ser arranjado e mantido com bom aspecto.

Solicita resposta formal, regista a carta, e fica pacientemente à espera? pelo menos de uma resposta.

Quase um ano depois, em pleno fim de tarde de Verão, o telefone toca, e, do outro lado, alguém com uma voz jovem e timorata, apresenta-se como assessor do Senhor Presidente.

Confronta o nosso homem com a autoria da carta, e avança, agora mais resoluto, com a boa nova: é que o assunto acabava de transitar para o serviço municipal dos espaços verdes, e só faltava ser elaborado projecto para o local, de modo que, queria-lhe dar o número do processo e sugerir que a partir desse momento fosse insistindo com o serviço (para que o projecto e o arranjo se fizessem)?

Delicadamente o homem agradeceu, ainda esboçou registar o número de que o outro lhe dava conta, mas o torvelinho de pensamentos que se sucederam, esboroaram esse impulso.

Lembrou-se que já tinha dado o assunto como perdido – mais de dez meses tinham passado, quase um quarto de mandato, para lhe ser dada uma resposta?

E ele é que tinha, a partir de então, que pressionar os serviços para que as coisas se fizessem?

Recordou-se, com cepticismo, daqueles governantes que convencidos da inépcia dos serviços públicos, rodeiam-se de hordas de adjuntos e de assessores, na vã ilusão de que assim tudo correrá mais depressa e quando dão por ela, verificam que apenas se acastelaram e deixaram de ter capacidade para percepcionar a realidade envolvente.

Amargurado, percebeu então em toda a sua extensão, o que é a participação na vida pública, a eficiência na prestação dos serviços públicos, a liderança política e respectivas (in)capacidades de gestão.

Conformado, decidiu ficar à espera que a qualidade de vida chegue um dia ao pé da sua casa.

Lembrou-se então, que traz sempre consigo uma arma, na carteira – o seu cartão de eleitor.

Que sim senhor, até está estimadinho, o uso nem tem sido muito.

Retirou-o cuidadosamente da bolsa, mirou e remirou-o, guardando-o de novo, e imaginando a luz ao fundo do túnel decidiu: é isso, vais continuar aí guardadinho, em conveniente sossego».

Moral da história: Um presidente de município não se pode comportar como um náufrago, imerso em papelada que não tem tempo para ler, que não é convenientemente tratada e em serviços que não controla.

A generalidade dos dirigentes tende a priorizar as urgências que tem entre mãos, em desfavor das respostas às múltiplas cartas e mails que lhe chegam, mas a sua obrigação é dar resposta em tempo útil aos dois níveis.

Claro que, aqui chegados, se coloca outra questão: qual é a capacidade real de resposta de cada município?

Então, se for caso disso, haja coragem e clarividência, também neste domínio (em vez de se aumentar os arquivos ou os cestos de papéis, de cartas sem resposta), para se elaborar «listas de espera» de correspondência, com critérios publicamente conhecidos e bem definidos.

Para que o funcionamento do sistema, não seja assim, a modos que uma fatalidade?

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