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Luís Pais Antunes lpa@plmj.pt 02 de Dezembro de 2013 às 00:01

Consenso ou sem ele…

Há quinze dias, a Irlanda mostrou-nos como a busca de consensos sólidos e a opção pela estabilidade política são importantes para ultrapassar obstáculos e sair de cabeça erguida de um processo doloroso. Na semana passada foi a vez de a Alemanha mostrar que os consensos políticos alargados não são impossíveis e que os grandes desafios exigem soluções estáveis e duradouras. Em Portugal continuamos a achar que não é assim.

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No nosso país, "consenso", "diálogo" e "estabilidade" são palavras que servem para enfeitar discursos. Todos as proclamam e defendem, mas poucos ou nenhuns se empenham verdadeiramente, como se receassem ser tomados por fracos. Procurar soluções conjuntas implica negociar; negociar implica ceder uma parcela do (pequeno) poder que cada um tem. Ora, ceder é coisa que ninguém tem querido verdadeiramente. A história dos últimos (muitos) anos quase que se poderia resumir a isso: todos têm medo de ser a pessoa certa que aparece na fotografia errada.

Paradoxalmente, poucas vezes o ambiente político e económico foi tão propício a consensos políticos alargados como agora. Fruto de sucessivos erros que se agravaram de forma decisiva na última década, a nossa margem de manobra enquanto país é estreitíssima. Tirando um punhado de radicais iluminados, de todos os quadrantes, ninguém acredita em soluções milagrosas e túneis cheios de luzes ao fundo. O caminho está cheio de pedras e pretender ignorá-las apenas pode levar-nos a tropeçar nelas e a prolongar o sofrimento.

Estranhamente, todos – ou quase todos – continuam a agir como se a solução para os problemas estivesse na radicalização das posições que cada um defende. Uns apelam à violência, outros fazem de conta que não vêem, nem ouvem, outros ainda querem tudo e o seu contrário. Pelo meio, discute-se cada vírgula dos acórdãos do Tribunal Constitucional e contabilizam-se as vitórias e derrotas que cada um julga ter obtido ou sofrido. Aparentemente indiferentes ao que se passa, alguns sectores tradicionalmente protegidos fazem greves e meias greves cuja legitimidade não é certamente questionável, mas de efeito prático limitado aos crescentes incómodos de uma população cada vez mais desprotegida.

O acordo de governo alcançado na semana passada na Alemanha entre a CDU/CSU e o SPD – numa repetição da fórmula subsequente à primeira eleição de Angela Merkel em 2005 – tem certamente coisas boas e coisas menos boas. Mas traduz um esforço muito significativo de aproximação das principais forças políticas alemãs que asseguram uma base de consenso e uma plataforma de entendimento absolutamente necessárias para enfrentar melhor os desafios da governação.

A força da realidade fará com que, em Portugal, mais tarde ou mais cedo sejamos "forçados" a adoptar uma solução semelhante. Mais do que uma questão de ideologia, trata-se de pragmatismo. Nós estamos e queremos estar na União Europeia. Nós não temos uma alternativa viável à Zona Euro. Conhecemos as regras e temos de viver de acordo com elas.

Há certamente coisas que podem e devem ser feitas de outra forma, mais ou menos diferente, mas que têm de ser feitas. Temos de gastar menos e melhor, aliviar o peso das famílias e das empresas e pôr a economia a funcionar para poder crescer. Mas isso não se faz num ambiente de guerrilha institucional e partidária…

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