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Carlos Varela 10 de Dezembro de 2012 às 16:17

Continua a contenção nos mercados mundiais

A retoma dos mercados mundiais encetada no Verão, na sequência do anúncio de uma terceira vaga de flexibilização quantitativa nos Estados Unidos e do programa de Tansacções Monetárias Directas (OMT) na Europa, desvaneceu-se no Outono. Apesar de a Reserva Federal dos Estados Unidos e de o Banco Central Europeu (BCE) terem assumido o compromisso de tomar novas medidas em caso de deterioração da actividade económica e de diminuição dos lucros das empresas, continua a verificar-se certa contenção nos mercados, devido a várias incertezas da presente conjuntura.

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A retoma dos mercados mundiais encetada no Verão, na sequência do anúncio de uma terceira vaga de flexibilização quantitativa nos Estados Unidos e do programa de Tansacções Monetárias Directas (OMT) na Europa, desvaneceu-se no Outono. Apesar de a Reserva Federal dos Estados Unidos e de o Banco Central Europeu (BCE) terem assumido o compromisso de tomar novas medidas em caso de deterioração da actividade económica e de diminuição dos lucros das empresas, continua a verificar-se certa contenção nos mercados, devido a várias incertezas da presente conjuntura.

Estados Unidos à beira do precipício fiscal

Nos Estados Unidos, as eleições de Novembro não provocaram alterações sensíveis na conjuntura política: além de Barack Obama ter assegurado a manutenção da presidência, os democratas continuam a controlar o Senado e os republicanos a Câmara de Representantes. No entanto, resolvida a incerteza inerente à eleição, os investidores começaram a preocupar-se com as consequências dos cortes na despesa, no valor de cerca de 600 mil milhões de dólares, e com os aumentos automáticos de impostos já a partir de Janeiro de 2013 (o chamado precipício fiscal).

Em 2013, a não ser que haja acordo bipartidário, a conjugação de cortes na despesa e o fim da isenção de impostos vai provocar um agravamento fiscal que poderá chegar a 4,3% do PIB. Em caso de aprovação, esta medida decerto lançaria novamente os Estados Unidos numa situação de recessão.

No entender dos nossos especialistas em acções dos Estados Unidos, apesar da luta renhida entre republicanos e democratas e da maior polarização de sempre verificada nas duas câmaras do Congresso, seria um suicídio político para os actuais responsáveis caso não se chegasse a um acordo. Estamos em crer, por isso mesmo, que será possível chegar-se a um acordo sensato, que conduza a um agravamento fiscal de cerca de 1,0% -1,5% do PIB em 2013. Mas é provável que o caminho para se chegar a tal acordo seja longo, sinuoso e enlameado.

É provável que cada um dos partidos puxe a brasa à sua sardinha para atingir o resultado desejado. É possível que os mercados accionistas se deparem com três a seis meses de debate aceso, antes de se chegar a um acordo final na Primavera de 2013, com efeitos retroactivos, devido ao tempo necessário à difícil discussão na especialidade.

A Grécia está na ordem do dia (novamente)

A Grécia também voltou para o primeiro plano das preocupações dos investidores no início de Novembro. O parlamento grego aprovou um novo pacote de medidas de austeridade, abrindo a porta à próxima parcela de ajuda da União Europeia (31,3 mil milhões de euros), que tinha sido adiada, e a uma renegociação de obrigações de dívida entre a Grécia e os seus credores oficiais.

No entanto, a turbulência política gerada pela crise grega não mostrou sinais de abrandamento, tendo em conta as novas manifestações contra os cortes da despesa pública. No seio da Troika, houve um desentendimento público entre o chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) e o presidente do Euro-grupo dos ministros das Finanças, o que constitui um sintoma da contínua tensão inerente à busca de um programa credível de redução da dívida no âmbito de uma solução mais alargada para a crise.

Poucos analistas acreditam que a Grécia seja capaz de alcançar a sustentabilidade da dívida a não ser que os governos dos Estados-membros da União Europeia aceitem uma redução (com as consequentes perdas) da parcela que detêm da dívida pública grega. No entanto, a Alemanha e outros países credores têm-se recusado a aceitar esta solução, à luz das obrigações inerentes aos tratados da União Europeia. A importância desta questão, no meu entender, vai aumentar ainda mais à medida que se agravar o enfraquecimento inerente à austeridade, tanto para os países da União Europeia que oferecem como para os que recebem ajuda financeira.

O programa OMT do BCE é fundamental para a contenção da crise, e os efeitos positivos já se fazem sentir nas novas emissões de dívida sem garantia por parte dos bancos, no aumento do número de emissões de obrigações de empresas e no incremento das entradas de capital na Europa. No entanto, para uma solução duradoura para a crise, é igualmente necessária uma liderança firme por parte dos Estados-membros da União Europeia.

A China está a encetar uma retoma económica?

O outro grande motivo de preocupação para os investidores ao longo do último ano e picos tem que ver com a desaceleração da economia da China. No entanto, os dados recentes têm sido animadores. Em Setembro, a produção industrial da China, o investimento em activos fixos e as vendas de retalho ficaram todos acima das previsões. Além disso, o índice de compras das empresas industriais subiu acima de 50, o que indica que a produção industrial tende a acelerar nos próximos seis meses.

A recente flexibilização monetária do banco central chinês melhorou a liquidez do sistema bancário deste país, o que está a contribuir para uma recuperação tanto dos empréstimos bancários como da massa monetária M2. A conjugação da estabilização do mercado imobiliário e de algumas medidas de apoio às infra-estruturas sociais também está a ajudar. A questão crucial é saber se o crescimento chinês está para durar.

Os investidores não deverão contar com uma recuperação em forma de V, mas poderá dar-se uma modesta reaceleração do crescimento ao longo dos próximos seis meses, sobretudo após a recente transição da liderança. Esta reaceleração seria favorável para os mercados mundiais e, dada a melhoria da conjuntura económica, o período de fraco desempenho das acções chinesas, que já leva dois anos de duração, pode finalmente estar a chegar ao fim.

É provável que a apatia dos investidores domine a curto prazo a confiança do mercado

É provável que o compromisso da Reserva Federal e do BCE em assumir novas medidas em caso de deterioração da actividade económica e de diminuição dos lucros das empresas continue a nortear os mercados a curto prazo. A flexibilização quantitativa alterou a equação de investimento de muitos investidores e trouxe vantagens para os activos de risco. Ao mesmo tempo, ao comprometer-se a manter os baixos valores das taxas de juros até se verificar uma clara dinâmica de crescimento, a Reserva Federal contribuiu para melhorar as avaliações das acções dos Estados Unidos.

Na Europa, estamos em crer que o programa OMT pode fazer a diferença ao estabelecer de forma eficaz um nível mínimo nos preços dos activos europeus. Existe também a possibilidade de uma aceleração modesta nas tendências de crescimento dos Estados Unidos e da China na primeira metade de 2013. Embora consciente da probabilidade de assistirmos a posteriores reduções dos lucros, esta não me parece ser a melhor altura para reduzir o risco das carteiras.

Head of Sales da JPMorganAM para a Península Ibérica

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