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Mário Melo Rocha 15 de Maio de 2006 às 13:59

Contra os fantasmas

As resistências às iniciativas, sobre serem em geral tacanhas, são muito portuguesas. Habituámo-nos a viver passivamente, conformados com o pouco que tínhamos e sem a ambição de termos mais e sermos melhores.

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À falta de rosas no regaço de Isabel, D.Diniz meteu mãos à obra e outorgou-lhe o respectivo foral. Séculos mais tarde, enquanto esperava pelo regresso dos embarcadiços, mais do que eles traziam, D.Manuel reformulou-o mas manteve o privilégio. As suas terras foram pisada pelas invasões francesas, inundadas pela barragem do Castelo de Bode e ardidas pelos incêndios que consumiram tudo. Nunca fui a Vila de Rei, não conheço lá ninguém nem nunca falei com a Presidente da Câmara. Apenas me informei. Estou, portanto, totalmente à vontade para escrever sobre a terrinha e os fantasmas que, por estes dias, por lá e por cá, ela fez despertar.

A dita vila e o respectivo concelho estão para Portugal como a Áustria está para a Europa: são pequeninos e têm tudo. Rede viária totalmente asfaltada, água ao domicílio em cada esquina, educação modelar, saúde exemplar, «ballet» e ginástica disponibilizadas gratuitamente. Uma jóia, dizem eles. Mas eles são poucos, muito poucos. Têm tudo, só não têm gente. Face ao que, a Presidente da Câmara decidiu «trazer população para Vila de Rei» - como, com genuína simplicidade, disse. Quer que o seu nome fique ligado à terrinha, não apenas porque lá pôs tudo o necessário, mas também por querer uma terra viva. E não vejo maior legitimidade para este desejo, mais do que natural, do que essa vontade de fazer bem à sua terra. Aproveitou a geminação com uma congénere brasileira - Maringá, se chama ela - e trouxe quatro famílias numa primeira «leva». A chegada coincidiu com as inevitáveis reacções. Que vão ocupar postos de trabalho que deviam ser ocupados por portugueses. Que, sobre serem forasteiros, são ilegais. Que a iniciativa tem custos consideráveis para o município. Só fantasmas. De tudo se disse e parece que tudo é falso. Primeiro, não se percebe que postos de trabalho são tirados aos portugueses se não há ninguém para os ocupar. E mesmo que os houvesse, restaria saber se os portugueses estavam dispostos a isso.

Segundo, as dificuldades para legalizar as famílias brasileiras não existem pela simples razão de que já estão todas legalizadas. Terceiro, os custos para o município são ínfimos porque as famílias pagaram as suas deslocações e vão habitar casas emprestadas por particulares durante seis meses, pagando elas a água e a luz. Passado esse tempo, procurarão, a expensas próprias, novas habitações. Os fantasmas caiem, um a um, por terra mas são sintoma que virão mais. Quando vierem mais famílias.

Nos anos 50 do século passado, a chamada escola criminológica de Chicago demonstrou a teoria segundo a qual um bairro podia ser intrinsecamente criminogéneo. A tese dizia que num bairro onde viviam famílias que praticavam determinado tipo de crimes, seriam praticados os mesmos crimes por outras famílias que o viessem a habitar e que não tinham com as primeiras qualquer laço, de sangue ou de simples conhecimento. A tese parece revisitada agora, num registo analógico, pelos criadores de fantasmas locais. Ora, no caso, nem a vila é um bairro, nem as famílias que a habitam praticam determinado tipo de crimes, nem as novas famílias querem ser iniciadas na função. Certo é que os fantasmas desaparecerão com a integração e à sua medida. Do que se trata é de batalhar contra eles e, no caso, evitar o surgimento de uma vila fantasma onde os caçadores dos ditos não terão, sequer, com que se entreter.

No fundo, as resistências às iniciativas, sobre serem em geral tacanhas, são muito portuguesas. Habituámo-nos a viver passivamente, conformados com o pouco que tínhamos e sem a ambição de termos mais e sermos melhores. O rectângulo funciona como espaço castrador do espírito de iniciativa. Isto só muda quando no futuro e indo às últimas consequências existirem dois tipos de portugueses: os de antes e os de depois de Mourinho.

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