Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
Paulo Pinho 22 de Fevereiro de 2011 às 11:40

Contra-revolucionários

Uma das muitas memórias que retenho do ano de 1975 era a propaganda anti-revolucionária que, dizia-se por cá, a imprensa internacional movia contra nós.

No estrangeiro, dizia-se, só diziam mentiras sobre Portugal. O meu avô materno, homem de família republicana e anti-salazarista, chegado a esse período tratou de comprar um rádio portátil de ondas curtas que utilizava, diariamente, estivesse onde estivesse, para ouvir diariamente a emissão portuguesa da BBC. Contra-revolucionariamente, lá ia ele, e todos nós que com ele estivéssemos, ouvindo o que por cá se passava através da fonte a que já havia recorrido num passado, afinal, tão próximo. Onda curta, 49 metros, as "pancadas" ritmadas pela abertura da 5ª de Beethoven marcavam a frequência correcta. Por isso, foi com pena que tomei conhecimento do recentemente anunciado fim daquele serviço que, pela voz de Fernando Pessa, ligou os aliados do Tratado de Windsor durante a segunda guerra mundial. A internet e a televisão por cabo têm destas coisas: acabam com referências históricas às quais já não recorríamos. Mas sentíamo-nos um pouco mais seguros por as sabermos lá.

Por estranha coincidência, vivemos hoje num período em que o Portugal descrito na imprensa internacional parece ser diametralmente oposto daquele que nos é descrito na imprensa doméstica, em geral, e na oficiosa, em particular.

De acordo com o Governo e alguns dos seus seguidores mediáticos Portugal vai francamente bem. O crescimento do ano passado ficou acima do esperado. Os inscritos nos centros de emprego estão a cair. As colocações de dívida pública são um sucesso. As exportações estão imparáveis. A execução orçamental bastante melhor do que o previsto. O FMI já não vem.

Ora, não é este o País que a imprensa internacional, e em particular a financeira, vem descrevendo nas últimas semanas. Quando se fala de crescimento é para dizer que Portugal caiu num quarto trimestre inflacionado pela antecipação de consumos devido à subida de IVA para 2011, o que antecipa uma forte quebra no início desse ano, como, aliás, corajosamente, o Governador do Banco de Portugal admitiu. Todos falam no crescimento do desemprego (ainda que não conheçam os truques de passar desempregados para cursos de formação, retirando-os das listas de inscritos). Todos falam no fracasso de leilões de dívida colocada a taxas totalmente insustentáveis. A Reuters e vários jornais falam abertamente da necessidade de intervenção da dupla FEEF/FMI, que tão desastrosamente vai destruindo o que resta da economia Irlandesa. A Bloomberg vai já falando de alguns problemas do sector imobiliário luso, mas ainda nem adivinha a dimensão do problema. No fim de semana o "Financial Times" perorava sobre o facto de Portugal ter necessitado de uma ajuda extraordinária (mais uma) do ECB quando as "yields" da dívida ultrapassaram os 7,6%. Na generalidade, ao contrário do que se diz por cá, existe "consenso" (para usar uma palavra tão cara aos mercados) quanto à necessidade de ajuda externa a Portugal.

Profissionalmente estou em contacto com muitos desses "especuladores"/credores londrinos e nova-Iorquinos. Esse consenso também lá chegou. Hoje, ninguém investe num activo português enquanto o País não pedir ajuda. Tal "sentimento de mercado" não muda em apenas alguns meses. Não vai dar para esperar até 2013 e a nova "arquitectura" do FEEF. Mais umas poucas colocações de dívida acima da taxa-limite fixada pelo nosso próprio ministro das Finanças (7%) e esse pedido de ajuda será, infelizmente, inevitável. O tempo, dizem alguns, é nosso aliado e por isso vale a pena esperar. Mas, nesta altura, estamos sós debaixo dos holofotes. Até a Espanha parece conseguir escapar. Investidores que nunca olharam para Portugal estão agora a espiolhar-nos de cima a baixo. Com o tempo que passamos na ribalta vão estudando mais e melhor. Hoje, acreditem, já não olham muito para o défice. Olham para a dívida. De forma crescente interrogam-se sobre o estranho "milagre imobiliário" português (onde de acordo com o discurso oficial não existe qualquer crise) e sua reduzida tradução em imparidades na banca. Alguns até já perceberam o impacto que a subida de taxas de juro vai ter sobre a capacidade de consumo das famílias endividadas. A palavra "haircut" vem sendo crescentemente mencionada em relação a Portugal. E, acreditem, não só propriamente em relação ao Estado…

Portugal encontra-se, por razões de pura táctica política, totalmente adiado. A ausência de estratégia é evidente, também para o exterior, sendo substituída por sucessões de remendos. Na Assembleia da República os deputados brincam às moções de censura condenadas à partida em vez de estabelecer consensos claros sobre uma estratégia de saída para a situação actual. Todos dizem que não querem cá o FMI. Então, pergunto-me, porque se comportam de forma a tornar inevitável a sua intervenção? E, depois, ainda dizem admirar-se com os níveis da abstenção!


Professor da Universidade Nova de Lisboa
Assina esta coluna quinzenalmente à terça-feira
Ver comentários
Mais artigos de Opinião
Ver mais
Outras Notícias
Publicidade
C•Studio