Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 07 de março de 2018 às 21:47

Contraste

Os maiores clubes que têm entre 400 a 600 milhões de pessoas têm mais ou menos 500 milhões de euros de receitas. Ou seja, em média, um euro por adepto.

Ouvi, há dias, uma intervenção do diretor desportivo do Manchester City, que transmitiu algumas ideias que dão muito que pensar.

Antes do mais, a impressionante subida das receitas geradas pelo futebol, que mais do que duplicaram nos últimos dez anos. Obviamente, que se destacam as principais Ligas, mas o fenómeno tende a generalizar-se, sendo subidas com grandes saltos na tabela, a nível de clubes, o Bayern de Munique e o Manchester City, e a nível de Ligas, a chinesa.

 

Outra ideia interessante - já conhecida - foi a da equidade na distribuição das receitas das transmissões televisivas pelos clubes ingleses. Entre provas nacionais e internacionais, o rácio entre o primeiro e o último é de 1,5, o que contribui para um maior equilíbrio.

 

Outro aspeto que impressionou foi o da distribuição das audiências pelos vários países do mundo. Por exemplo: o Reino Unido é o 9.º país em número de espetadores que seguem os jogos da Liga Inglesa. Os primeiros são a China, a Indonésia, a Rússia e outros bem distantes. E esta é a linha de trabalho dos principais clubes (e dos que o querem ser): trabalhar para o mercado global. Os maiores clubes que têm entre 400 a 600 milhões de pessoas têm mais ou menos 500 milhões de euros de receitas. Ou seja, em média, um euro por adepto. É evidente que muitos desses "suporters" não têm dinheiro para comprar produtos de "merchandising". Mas imaginem só quando estes clubes conseguirem aumentar um pouco o número de adeptos e um pouco o que cada um despende... A este propósito, refira-se que o Manchester City desenvolve há anos uma estratégia de aquisição ou participação do capital de vários clubes em diferentes países do mundo. Por exemplo, criou o New York City, adquiriu o Melbourne City, o Yokohama Marinus, no Japão, o CA Torque, no Uruguai, e o Girona, em Espanha. O conceito é de conciliar a dimensão global e a dimensão local do trabalho de afirmação do Manchester City. É na verdade impressionante a capacidade, como disse o conferencista, de conciliar ou de aproveitar a paixão que há pelo futebol em todo o mundo para criar autênticos impérios.

 

Muito interessante, também, é a realidade de os jogos das competições europeias, incluindo a Champions, terem menos público do que as partidas entre clubes ingleses. Um jogo da Taça da Liga em Inglaterra está sempre esgotado enquanto os da Champions, muitas vezes, não têm casa cheia. Esta realidade tem, incontestavelmente, algo de "brexitiano", mas só revela que os cidadãos daquele país gostam do seu futebol e confiam no respeito pelos bons princípios desportivos que por lá se pratica. Que bom deve ser o desporto ser só desporto e não estar envolvido em guerras e suspeições permanentes.

 

Por isso, eles vão conquistando mercado por todo o mundo. E, notava o conferencista, Portugal tem rácios de bons jogadores e de bons treinadores como poucos ou nenhum. E, por isso, também de grandes troféus. Claro que não falou de casos. Falou de resultados e de ambição de ser ainda melhor. Lembrou, nesse quadro, que existem muitos investidores, com capacidade financeira de diferentes nacionalidades dispostos a investirem em bons projetos com capacidade ganhadora. Por isso mesmo, considerou natural que alguns se possam interessar cada vez mais por Portugal, dadas as suas performances nesta área e a inata propensão dos portugueses para conseguirem, alguns deles, grandes proezas a nível internacional. Foi aliás mencionado que Portugal pode ter, no próximo ano, caso se confirme a subida do Wolverhampton, quatro treinadores de futebol na Primeira Liga Inglesa o que não acontece com qualquer outra nacionalidade.

 

Advogado

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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