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Coragem não é tudo

Já se ouviu Silva Lopes dizer que este é o Governo mais corajoso desde o 25 de Abril. Este economista, e antes de tudo um respeitadíssimo cidadão, é conhecido pelo seu pessimismo. Não por exagerar nos elogios.

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Já se ouviu Silva Lopes dizer que este é o Governo mais corajoso desde o 25 de Abril. Este economista, e antes de tudo um respeitadíssimo cidadão, é conhecido pelo seu pessimismo. Não por exagerar nos elogios.

Se o caso é a função pública, até dá para concordar com ele. Não há memória de um Governo ter perseguido, com tanta tenacidade, os “direitos adquiridos” dos grupos “especiais”.

Nem há desculpa, já agora, para uma oposição desaparecer quando o país mais dela precisa. Hoje, no debate mensal da AR, o doutor Marques Mendes tem o dever de assumir uma posição clara. Nem que seja errada, de oportunismo. É preferível à covardia.

Mas este Governo, que segue determinado na limpeza de privilégios e de direitos que só são evocados por serem adquiridos e não justos, enfim desta selva imoral que silenciosamente alastrou na administração pública, é o mesmo Governo que, de quando em vez, nos faz o favor de lembrar que “coragem” não é uma qualidade absoluta.

Pelo contrário. É um perigo ter um projecto totalmente equivocado, capaz de gerar resultados catastróficos, nas mãos de um líder apenas “corajoso”. Cavaco Silva, o último primeiro-ministro corajoso, cometeu erros graves por lhe faltarem outras virtudes: tolerância, paciência. E, já no fim, até cultura democrática.

Sócrates é inegavelmente um homem corajoso, determinado. Dificilmente irá ceder nesta guerra em que se enfiou. O país conta, por isso, com a sua coragem.

Foi assim que ganhou prestígio no Ambiente. Só assim levou a co-incineração até ao fim. No meio daquela flacidez guterrista, no meio de um Governo que não sabia dizer não.

De persistência, estamos então bem servidos. E consistência? E coerência? Sem elas, a coragem torna-se até perigosa. O valente fica autista. O reformador “vira” pirómano.

A nomeação de Fernando Gomes para a Galp e a reforma de Luís Campos e Cunha constituíram dois abalos, ainda por cima desnecessários, na coerência do chamado Plano Sócrates.

Beliscou princípios e legitimou alguns fins. Duvidosos. A mensagem de sacrifícios ficou ali, entalada, no meio. A teimosia nas Scut, por seu turno, é uma decisão inconsistente com a essência do novo PEC.

Tal como esta trapalhada que estão a criar nas remunerações dos directores-gerais e dos administradores das empresas públicas. Isto, nem tem princípio, nem meio, nem fim. E, mais do que as greves, constituem uma ameaça grave ao serviço público.

Um director-geral não pertence ao Governo. Não é um homem de mão de ministro. Não deve, portanto, ser ocupado por alguém de confiança política.

Um director de Impostos ou da Judiciária tem de ser da confiança do ministro porquê? São quadros de topo da Administração Pública, logo devem ser pagos a valores do mercado. Ontem ficaram indexados aos salários dos políticos.

Um gestor público deve partilhar o esforço, pode perfeitamente aguentar dois anos sem aumentos. Mas retirar prémios de desempenho é um disparate sem fim.

Políticos na Galp e gestores sem incentivo ao mérito? Mistura explosiva. A reforma do país pode mesmo acabar em incêndio.

 

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