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Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 04 de Maio de 2010 às 11:27

Cuidado com as carteiras

A cordilheira financeira das últimas semanas focou-se nos mercados de dívida, no euro e nos Estados. Mas enquanto isso, fizeram-se e desfizeram-se fortunas nas bolsas. A CMVM devia obrigar a fazer testes de preparação física: ser investidor em Portugal é profissão de risco. Risco de ser taxado, difamado e "shortado".

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A cordilheira financeira das últimas semanas focou-se nos mercados de dívida, no euro e nos Estados. Mas enquanto isso, fizeram-se e desfizeram-se fortunas nas bolsas. A CMVM devia obrigar a fazer testes de preparação física: ser investidor em Portugal é profissão de risco. Risco de ser taxado, difamado e "shortado".

A história repete-se: como no "subprime", aos investidores chama-se agora especuladores, "mercados" é agora palavrão, bolsa é selva e "capitalismo" passa a ser o escape roto da democracia: um ruidoso bode expiatório dos políticos. Mas antes de metermos toda essa gente que compra e vende acções no Campo Pequeno onde a consciência colectiva salda as suas dívidas, pare para pensar. Nem tudo o que parece é.

Impostos: os investidores em bolsa vão passar a pagar pelas mais-valias. É justo, é necessário e é alinhado com outros países. Mas porquê o erro? Chamem-lhe ilegalmente retroactivo (como o faz o "Manifesto dos 69") ou legalmente retrospectivo (como o Governo): cobrar um imposto sobre operações que já se fizeram desconhecendo-o é enganar o contribuinte. Até um vampiro merece uma lei moral.

Mas admitamos que o tempo não está para rodriguinhos. Que as guerras atropelam inocentes na velocidade por um bem maior. Então, a tributação das mais-valias de retroescavadora é um pormenor. O que estraga tudo é, na verdade, outra coisa: que só os pequenos investidores a paguem. Os mais sofisticados, que investem de outra morada, escapam aos impostos.

Este tratamento desigual e em desfavor dos mais fracos - sim, a bolsa também tem hierarquia - mostra que um investidor não precisa apenas de um consultor financeiro. Precisa de um fiscalista.

"Short selling": o aperto das regras pela CMVM é necessário. As vendas a descoberto fazem parte do mercado, atraem liquidez e diversificam risco. As empresas fazem, racionalmente, cobertura de risco de taxas de juro, de matérias--primas, de câmbios, por que não haveriam de fazer de acções? Daí que rapidamente se conclua que "short selling" sim, mas com regras. Proibindo o nudismo impudico do "naked short selling". Obrigando à divulgação de operações.

Não basta. Há muito preconceito contra e ignorância a favor de operações que lucram com as desvalorizações de títulos em bolsa. E é verdade que por cada euro investido contra uma empresa, há um euro que especula em sentido diferente, o que dita os equilíbrios. Mas só um cego não vê as "shortadas" na última semana, que por exemplo levaram o BCP a cair 30% e a subir 50% em poucos dias, com uma rodagem recorde de capital. Um iô-iô nas mãos de investidores incontrolados, que fazem de um pequeno banco europeu um joguete de autodestruição.

A bolsa não é o covil de bestas ricas dos sonhos sádicos do Bloco de Esquerda. As perdas das últimas semanas não são ajustes de contas com os que se desgraçaram nem vinganças dos que fizeram fortunas com "shortadas" nos "bêcêpês" e "psis" deste mundo. As bolsas servem para diversificar investimentos de uns e para capitalizar outros. Se a bolsa se vira contra as empresas, algo está errado. Desregulado. Ou desregulamentado. Todos querem ganhar dinheiro. Uns sabem, outros não.

psg@negocios.pt

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