Carlos Bastardo
Carlos Bastardo 19 de junho de 2017 às 21:17

Custo da dívida pública baixa, mas o "spread" continua elevado

Recentemente, o IGCP realizou uma emissão de dívida pública portuguesa nas maturidades de cinco e de 10 anos, aproveitando a baixa das "yields" da dívida pública portuguesa nos últimos dois meses.

Na emissão de obrigações de dívida pública com vencimento a 10 anos, a taxa média de emissão das Obrigações do Tesouro foi de 2,851%, quando no leilão anterior havia sido de 3,386%. Este facto é positivo.

 

Contudo, tão ou mais importante que a redução do custo de emissão da dívida pública é a necessária e urgente redução do diferencial ("spread") entre a dívida pública portuguesa e o seu "benchmark", ou seja, a dívida pública alemã com idêntica maturidade.

 

No dia em que se realizou a emissão, o "spread" entre as obrigações portuguesas e alemãs a 10 anos era de 260 pontos base (1 ponto base = 0,01%), ou seja, 2,6%.

 

Em meados de 2015, este "spread" atingiu em média os 130 a 150 pontos base. Ou seja, o risco da dívida pública portuguesa é hoje mais elevado do que há dois anos.

 

E este é o problema que urge resolver. Num ciclo de descidas das "yields" na Europa (2016 e 2017), o risco de Portugal aumentou. Já pensaram o que pode suceder caso o ciclo das taxas de juro se inverta, ou seja, quando começarem a subir?

 

Portanto, é urgente que a "yield" das obrigações portuguesas continue a reduzir-se, mas o que é fundamental é que o "spread" face às obrigações alemãs se estreite, porque só nessa situação, poderemos afirmar que o risco de Portugal está de facto a diminuir.

 

Perguntarão os leitores, mas se o PIB está a evoluir de forma mais dinâmica, se o país parece estar na moda, se o nível de confiança dos portugueses está a melhorar, entre outros aspetos, porque é que a perceção de risco dos investidores permanece elevada?

 

O estado do setor financeiro em Portugal tem sido o fator decisivo e comum nas múltiplas análises feitas por economistas nacionais e internacionais, pelas agências de "rating" e pelos investidores em geral.

 

Apesar de a capitalização e restruturação da CGD estar a avançar, existem ainda alguns dossiês por resolver: a venda do Novo Banco, a entrada de novo capital no Montepio Geral e a criação do "bad bank", ou seja, da instituição que irá gerir parte do crédito vencido do setor bancário.

 

A banca é um setor vital para o desenvolvimento de qualquer economia, pois é quem a financia. E a economia portuguesa bem necessita de financiamento para o tão desejado e necessário investimento.

 

Penso até que a estabilidade do setor bancário é o critério vital para a subida do "rating" do país.

 

Existem outros fatores negativos, fragilidades ou constrangimentos da economia portuguesa que têm impedido a revisão em alta do "rating". Contudo, a solvibilidade e a rendibilidade da banca portuguesa são os fatores cruciais para os credores internacionais olharem com mais confiança para Portugal.

 

Se no segundo semestre de 2017 forem tomadas medidas estruturais no setor bancário, isto é, se os dossiês em curso forem fechados ou que existam perspetivas mais fortes de o serem, poderemos ver finalmente luz ao fundo do túnel na questão da melhoria do "rating" no final do ano ou em meados de 2018.

 

Economista

 

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