Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 26 de março de 2018 às 22:54

Da ilusão à realidade

Os bancos foram carregados de imparidades, a economia afundou-se na dívida e o capital desaparecido nunca mais reapareceu.

A FRASE...

 

"Foi negociado com Bruxelas e o BCE um plano de reestruturação que arrisca transformar a Caixa num saco de papel. Esse mesmo plano, nunca tornado público, além de prever o fecho de operações em vários países, limita a actividade do banco público."

 

João Vieira Pereira, Expresso, 24 de Março de 2018

 

A ANÁLISE...

 

Todos querem falar da utilização dos dados do Facebook para segmentar os eleitorados de modo a dirigir a cada segmento mensagens e informações que influenciem a sua escolha de votos. Todos se escandalizam com a utilização de notícias falsas para manipular a opinião pública e desvalorizar o efeito das notícias verdadeiras - na informação, como na moeda, a má informação expulsa a informação rigorosa. Esquecem de que a dupla Hitler-Goebbels, sem ter a tecnologia moderna, mas sabendo segmentar o eleitorado e explorando a propriedade de que a mentira muitas vezes repetida se transforma em verdade (que é o que faz o Facebook e o Twitter com as "fake news"), conseguiram, nos anos 30 do século passado, o que a dupla Trump-Bannon ensaia fazer agora nos Estados Unidos. Em ambos os casos (ou nas imitações actuais na Grã-Bretanha, em Itália e na Alemanha), o antídoto para o falso está na realidade efectiva das coisas que irá revelar a impossibilidade desses projectos políticos que são fundamentados em "pios de pardal".

 

Temos em Portugal a ilustração disso mesmo. Em 1975, foi nacionalizado o sistema bancário e apropriado pelo Estado o capital privado dos grupos empresariais. A notícia falsa foi que o Estado e os seus responsáveis democraticamente escolhidos pelos eleitores passariam a gerir os bancos e a servir-se dos capitais que nacionalizaram de modo a promoverem o desenvolvimento e a modernização. A realidade efectiva das coisas mostrou que os bancos foram forçados a conceder créditos para sustentar empresas que nem tinham planos de negócios viáveis nem relações sociais de produção em que os custos fossem cobertos pelas receitas. Os bancos foram carregados de imparidades, a economia afundou-se na dívida e o capital desaparecido nunca mais reapareceu.

 

Obrigada a negociar a sua recapitalização, a Caixa Geral de Depósitos, banco público que sempre foi público, teve de aceitar constrangimentos que lhe anunciam o destino, mesmo que não sejam do conhecimento público. É a vida - a realidade vence sempre as ilusões que são "fake news".

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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