Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
Mário Melo Rocha 16 de Abril de 2007 às 13:59

Da terrinha com amor

Somos, sob a forma estimada, pouco mais de dez milhões. Aumentámos. Estendemo-nos, sobre a área medida, por 92 mil quilómetros quadrados. Encontramo-nos, pois, amiúde, na medida em que, por quilómetro quadrado, chocam-se 114 portugueses.

  • Assine já 1€/1 mês
  • ...

Praticamente a mesma densidade da União Europeia (116) , com os seus 4 milhões de quilómetros quadrados como albergue para mais de 450 milhões de almas. A este enquadramento deve seguir-se outro. Embora irrelevantes do ponto de vista administrativo, são, ainda, as províncias que dizem mais aos portugueses. E os distritos. Os seus distritos. Quem lhes tira a província não os percebe e quem lhes rouba os distritos tira-lhes tudo. Isto também quer dizer que os conceitos de regiões, as instituições como as Comissões de Coordenação ou os indicadores estatísticos como as chamadas "nomenclaturas de unidades territoriais" (vulgo NUTS) lhes dizem pouco ou nada.

As áreas urbanas, divididas em grandes áreas urbanas (GAM), comunidades urbanas (ComUrb) e comunidades intermunicipais (ComInter), nada lhes dizem, para lá do tom moderno que o som das siglas propicia e dos dinheiros que Bruxelas lhes disponibiliza. Nomes e siglas leva-as o vento e o que, de facto, permanece perene, para lá da pertença distrital, é a terra. A nossa terra. Não a terra chamada Portugal mas a terrinha de cada um de nós. Dentro da terra maior que é o país. Existe nisto alguma contradição com o cariz unitário do Estado e, sobretudo, com o conceito de Nação. Porque o que caracteriza o conceito de Nação é o sentimento de pertinência comum nacional. E este sentimento, no caso português, existe prevalecentemente (ou apenas?) quando o país é confrontado com outros países. E os portugueses com estrangeiros. O que, verdadeiramente, existe é um sentimento de pertinência comum local. À terra onde se nasceu. Quando muito, ao distrito. Concedendo, à província. De tal modo é assim que as direcções nacionais dos partidos praticamente só perdoam estados de alma diferentes dos seus quando as estruturas locais ou distritais empunham a bandeira da defesa dos interesses da terra respectiva. É assim com a Ota, como seria com Rio Frio ou com outro sítio qualquer onde se aventasse a construção do novo aeroporto. Bem podem as direcções partidárias dizerem o que quiserem que as estruturas locais dizem logo o contrário se pressentirem que os investimentos podem ir parar à terra ao lado. Já foi assim com um Orçamento de Estado que ficará, para sempre, alcunhado como o orçamento limiano ou, mais prosaicamente, como o orçamento do queijo. Como foi e continuará a ser assim quando se trata de investimento estrangeiro previsto e concretizável. Como foi e continuará a ser quando volta a regionalização como via de retoma da influência perdida da terra.

O problema que a coisa tem não reside, apenas, na escala. Reside, também, em traduzir-se num modo de ser. Sempre à volta do umbigo. É necessário transpor uma importante directiva comunitária ? A primeira coisa que cada sector faz é saber se o sector está abrangido. A segunda, depois da resposta afirmativa, é saber como escapa a ela. É preciso fazer uma reforma de fundo ? A primeira coisa a ser feita é aguentar, travar, empatar até parar. A segunda, quando a coisa avança, é fazer o sector abrangido escapulir-se das malhas legais. Neste quadro, Portugal define-se assim: é um amontoado de terras e um estaleiro de estamentos. O chamado municipalismo percebeu-o e o corporativismo também. Em Portugal é difícil ouvir a pergunta "que podes fazer pelo teu país?". Mas está sempre presente a promessa do que "podes fazer pela tua terra". Os portugueses de há muito se cansaram dos feitos que ousaram. E de há muito que preferem perpetuar-se a uma escala mínima. À escala e com a mentalidade da terrinha. Com amor.

Mais artigos do Autor
Ver mais
Outras Notícias