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Pedro Santana Lopes 05 de Maio de 2016 às 00:01

Das palavras aos atos

Sou completamente contra os lares chamados de terceira idade ou os lares unigeracionais, ou lares de depósito. Cada tempo tem, naturalmente, as suas explicações, mas considero esse modelo próximo da selvajaria.

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Ainda nesta quarta-feira, ao receber na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) uma delegação de deputados alemães, tive ocasião de conversar com eles sobre a realidade alemã nessa matéria. Transmiti-lhes a minha preocupação para que a SCML e a generalidade das instituições de solidariedade social (IPSS) trabalhem em novos modelos nessa matéria e noutras. Na passada semana, a Mesa da SCML decidiu fomentar a linha de trabalho consagradora da figura dos cuidados familiares. Pretendemos substituir o apoio às pessoas dependentes em lares pelo apoio em casa junto das suas famílias. Será melhor para os próprios, para as famílias, para a comunidade e será melhor para o Estado, até do ponto de vista financeiro como é evidente. Pode ser essa ou outra via, agora, lares só para pessoas de uma só geração é que não. Por exemplo, o lar que estamos a construir na Quinta Alegre, na Ameixoeira, tem como base o lema que para nós é quase sagrado: a intergeracionalidade.

 

Haverá espaços comuns, nomeadamente de refeições, de exercício, até de culto, mas depois, naturalmente, haverá apartamentos distintos, consoante a camada etária. Não queremos nem que os mais novos nem que os mais velhos se perturbem uns aos outros com as horas a que gostam de ter silêncio ou de continuar ativos. Cada um sabe de si. Agora, do que não prescindimos é de ter lá nesse espaço - junto ao aeroporto e que terá uma unidade social num lindíssimo palácio e jardim romântico do século XVIII realizada pela gabinete de arquitetura Vítor Mestre e Sofia Aleixo - pessoas de mais idade, de jovens universitários e famílias a meio do seu percurso de vida, dos 30 aos 50 anos, com filhos ainda em idade escolar.

 

A inovação social, a economia social, o empreendedorismo social, as empresas sociais, fazem parte de um conjunto de conceitos trazidos também por uma certa ansiedade comunitária que todos vivemos, mas que estão à espera de ser preenchidos pela realidade. Muitas vezes, já o disse e escrevi, quando se referem esses conceitos não se sabe ao certo do que se está a falar. Mas todos sabemos que há um caminho a percorrer, até porque nem os setores privado nem o público conseguem responder às necessidades contemporâneas.

 

Portugal e a Alemanha têm baixas taxas de natalidade, enfrentando depois o problema do envelhecimento. A esperança média de vida vai aumentando e, por isso mesmo, temos de ter a noção de que a idade em que as pessoas se reformam hoje em dia é a idade em que ainda querem estar ativas, em que rejeitam ser postas de lado, em que se sentem ainda cheias de forças para continuarem a ser úteis. Também por isso, os tradicionais modelos de lar estão completamente ultrapassados. Os espaços onde residem pessoas aposentadas têm de descobrir a sua vocação de aproveitamento laboral, com contrapartidas pessoais e com serviços prestados à comunidade. Por exemplo, cada unidade, dantes chamada lar, passa a ter uma ou duas especializações no trabalho que desenvolvem. Inovação social: fundos para tal já temos, agora falta-nos dar corpo e concretização ao conceito. 

 

Advogado

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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