Carmen Reinhart
Carmen Reinhart 14 de agosto de 2016 às 20:00

De quem era mesmo o QE?

Já não vivemos nesse mundo centrado nos EUA, onde a Fed era o único banco central em jogo e alterações à sua política monetária influenciavam fortemente as condições de liquidez no mercado interno e, em grande medida, nos mercados internacionais.

Entre 1913 (quando a Reserva Federal dos EUA foi fundada) e o final da década de 1980, seria justo dizer que a Fed era o único banco central em jogo no que toca à compra de obrigações do Tesouro norte-americano. Durante essa altura, a Fed detinha entre 12% e 30% dos títulos em circulação, atingindo um máximo depois da Segunda Guerra Mundial, quando a Fed tentava reanimar a economia norte-americana, que definhava após a primeira subida acentuada dos preços do petróleo em 1973.

 

Já não vivemos nesse mundo centrado nos EUA, onde a Fed era o único banco central em jogo e alterações à sua política monetária influenciavam fortemente as condições de liquidez no mercado interno e, em grande medida, nos mercados internacionais. Anos antes da crise financeira mundial - e antes de o termo "QE" ("quantitative easing", ou alívio quantitativo) se ter tornado num membro efectivo do léxico financeiro – a detenção de obrigações do Tesouro norte-americano pelos bancos centrais estrangeiros começou a aproximar-se da percentagem da Fed, até que a ultrapassou.

 

A compra de obrigações norte-americanas por bancos centrais estrangeiros disparou em 2003, anos antes da primeira ronda de alívio quantitativo, ou "QE1", que foi lançada no final de 2008. O grande impulso nas carteiras dos bancos centrais estrangeiros – chamemos-lhe "QE0" – foi liderado pelo Banco Popular da China. Já em 2006 (o pico da bolha imobiliária dos EUA), as instituições oficiais estrangeiras detinham cerca de um terço dos títulos do Tesouro norte-americano em circulação, uma quantidade cerca de duas vezes superior à registada pela Fed. Na véspera do QE1 da Fed, a quota era de cerca de 40%.

 

Abrangendo uma década (2003-2013), o QE0 foi o aumento mais sustentado e ininterrupto de que há registo nas compras de obrigações do Tesouro norte-americanas por bancos centrais. É difícil determinar em que medida o QE1 da Fed deve o seu sucessode reduzir as taxas de juro durante a crise, ao facto de ter sido reforçado pelo que os outros bancos centrais em todo o mundo - principalmente na Ásia - estavam a fazer simultaneamente. É interessante constatar, no entanto, que as duas rondas seguintes de política monetária da Fed, o QE2 e o QE3, não foram acompanhadas por grandes quantidades de compras externas e parecem ter tido apenas efeitos modestos nos mercados financeiros.

 

Depois da turbulência da crise de 2008 ter diminuído, vários índices de condições financeiras revelaram níveis de volatilidade relativamente baixos (face aos padrões históricos), até à Primavera de 2013. Mas essa estabilidade primaveril depressa desapareceu. Uma combinação entre a queda dos preços do petróleo e de outras matérias-primas primárias, um ciclo de negócios demasiado avançado, bem como o anúncio da Fed de que pretendia iniciar a redução das suas compras de activos, levaram a que o ímpeto de uma década nos mercados emergentes chegasse ao fim. Desde então, o crescimento destas economias abrandou significativamente, os seus mercados accionistas afundaram, a saída de capitais intensificou-se e grande parte das suas moedas desvalorizou acentuadamente.

 

Paralelamente a esta infeliz série de acontecimentos, vários bancos centrais de mercados emergentes fizeram inversão de marcha e começaram a vender títulos do Tesouro norte-americano. Contudo, não soubemos destas vendas através do relatório trimestral da Fed sobre as contas financeiras dos EUA. Na altura em que as vendas começaram, a Fed parou de publicar a detenção de obrigações do Tesouro dos EUA por instituições oficiais internacionais (um conjunto de dados que estava disponível desde 1945). Agora, o relatório mostra apenas os dados agregados, que somam as carteiras dos bancos centrais com as do sector privado.

 

Felizmente, o Tesouro dos EUA ainda publica essa informação. No final de 2015, a quantidade de obrigações do Tesouro norte-americano detidas por bancos centrais estrangeiros era 1,5 vezes superior à registada pela Fed. Mas este valor é significativamente inferior ao seu máximo e, com a saída de capitais na China e em outros países a não revelar sinais de abrandamento, a tendência é agora de queda.

 

O término desorganizado e irregular do QE0 está, muito provavelmente, a abafar os efeitos das garantias, por parte de responsáveis da Fed, de que manterão o balanço da instituição bem apetrechado. Na verdade, as condições de liquidez mais apertadas e o aumento da volatilidade nos mercados financeiros são a consequência da reversão do longo ciclo de compras externas.

 

A conclusão do QE0 não implica necessariamente uma queda do apetite no resto do mundo pelas obrigações do Tesouro norte-americano. Em tempos de turbulência financeira, o Tesouro dos EUA tem sido um refúgio para a saída de capitais privados. Mas a actual mudança de propriedade tem implicações na estabilidade financeira. A transição de compras estáveis (e muitas vezes previsíveis) dos bancos centrais estrangeiros na época entre 2003 e 2013 para as mãos menos previsíveis dos investidores privados, que são mais sensíveis a alterações nas taxas de retorno, deverá ser a assinatura desta fase do ciclo global.

 

Carmen Reinhart é professor de Sistema Financeiro Internacional na Kennedy School of Government da Harvard University.

 

Copyright: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org
Tradução: André Tanque Jesus

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