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Cristina Casalinho - Economista 16 de Janeiro de 2009 às 15:47

Década perdida ou ajustamento imperioso

A crise financeira iniciada em 2007 não se distingue significativamente de anteriores, que no último quartel de século grassaram em países tão diversos como: Japão, Argentina, Coreia do Sul, México, ou Suécia. O caso do Japão tem sido assumido como paradigmático para a actual crise na busca de pistas para a sua resolução e na definição de cenários evolutivos prováveis.

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Contudo, apesar de algumas diferenças específicas, as crises nos países referidos foram muito semelhantes: o ajustamento foi prolongado no tempo, na medida em que determinou a alteração de comportamentos de, pelo menos, um sector da economia, redundando em: quebra do produto, acréscimo do desemprego, redução dos preços de activos imobiliários e acções de empresas, que se estenderam para além de um ano.

No caso particular do Japão, o excesso prendeu-se com forte endividamento das empresas facilitado por crédito barato, que resultou em capacidade produtiva excedentária. Após uma década de planos de estímulo à economia, que esgotaram o receituário, entre 1990 e 1999, o PIB japonês cresceu 1.5%/ano e desde 2000 expandiu-se 1.6%. Entretanto, o desemprego passou de 2.1% em 1990 para 4% em 2007, a dívida pública líquida aumentou de 15% para 90% do PIB e a alavancagem das empresas (dívida/capital) caiu para um terço (97% em 2007).

A presente crise, ao contrário da japonesa, não é uma convulsão localizada, estendendo-se a todo o mundo, graças à globalização. Assim, o expediente que ajudou os países asiáticos ou a Argentina a sair da crise não está disponível. Relembre-se que o consumidor americano, que tinha funcionado como último reduto do consumo mundial, está-se a revelar cauteloso. Perante a convocação das famílias para renovada onda consumista, em que os estados se lhes substituem, quando os consumidores se mostram renitentes, importa interrogar se não se presencia a negação da inevitabilidade da correcção de desequilíbrios e excessos reais.

É consensual que os estados devem lançar mão de políticas de estabilização para evitar que a crise se torne virulenta, degenerando em recessão endémica e deflação. Então, é fundamental os estados conjugarem investimento público, reprodutivo em áreas que promovam o aumento da produtividade futura, enquadrado numa lógica intergeracional de custo-benefício (se as próximas gerações vão pagar o acréscimo de dívida pública, então que existam infra-estruturas de que possam também usufruir), com aumento de rendimento de sectores mais vulneráveis (cheques-consumo ou redução temporária de taxas em determinados escalões de imposto) e garantia de maior facilidade de acesso ao crédito a projectos viáveis. As medidas do lado da receita, também por questões intergeracionais, poderiam, em parte, ter financiamento monetário (inflação), desde que moderado/controlado.

Se estas medidas serão bem sucedidas é uma incógnita. Deve-se, porém, assimilar que, provavelmente, nas economias desenvolvidas, ir-se-á viver piores dias nos próximos tempos. Efectivamente, a correcção em curso não se afigura, na sua génese, decorrente de falta de procura. Serão razoáveis as expectativas do passado recente que assumiam que todos os chineses, a breve trecho, teriam um automóvel ou que todos os americanos comprariam um novo computador ou telemóvel todos os anos? Estas perspectivas, que dominavam o ideário recente, não se conjugam com as possibilidades produtivas factuais num horizonte temporal comportável: quer em termos de recursos, quer em termos ambientais. Consequentemente, é expectável que, da mesma forma que as empresas japonesas demoraram cerca de dez anos a reduzir o endividamento e redimensionar-se, o ajustamento do consumo americano, britânico, espanhol ou irlandês, aumentando a poupança e arrastando a redefinição da oferta mundial, se prolongará. Ora, as actuais políticas de reanimação destinam-se a impedir que esta correcção seja muito rápida e profunda, mas não a assegurar aceleração do crescimento tendencial. Pode-se adiar ou amenizar ajustamentos de desequilíbrios reais, mas, com maior ou menor estrondo, são inexoráveis. Não se lhes pode fugir. Recorde-se que a quase exclusiva chave para o crescimento sustentável é a inovação, assegurando os ambicionados ganhos de produtividade.

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