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Margarita Maio 04 de Dezembro de 2019 às 18:03

Decifrar Greta Thunberg – Uma líder invulgar

Com coragem, Greta transformou o que alguns consideram uma doença num “superpoder” para despertar a humanidade da sua letargia contra as alterações climáticas.

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Em Maio de 2019, Greta Thunberg foi capa da prestigiada revista TIME que a elegeu como a "líder da próxima geração" pelo seu activismo político contra a mudança do clima. Pouquíssimos jovens de 16 anos conseguem obter este reconhecimento pela sua capacidade de liderança. A Amnistia Internacional concedeu a Greta o prémio anual de Embaixadora da Consciência. Considerada "um exemplo importantíssimo para a sociedade", Greta chegará a Espanha no início de Dezembro de 2019 para a Conferência do Clima (COP 25) que vai reunir líderes políticos, cientistas e empresários de todo o mundo com quase 25.000 participantes.

 

No entanto, o seu estilo invulgar também foi alvo de muitas críticas e ataques pessoais invocando problemas de saúde mental. O presidente Donald Trump fez piadas sobre a sua cara de felicidade e a primeira-ministra Theresa May não via com bons olhos que Greta faltasse às aulas para protestar contra a mudança do clima.

 

Como decifrar o estilo de liderança de Greta Thunberg? 

 

O perfil psicológico de Greta como líder da próxima geração é frequentemente comentado. Aos 11 anos, sofreu uma forte depressão e acabou por ser diagnosticada com síndrome de Asperger. Vistas como excêntricas, muitas crianças e adolescentes com este perfil neurológico podem passar por períodos de depressão. 

 

O estigma social faz com que a síndrome de Asperger seja um transtorno pouco conhecido, embora tenha sido descoberto há mais de 50 anos. O pediatra vienense, Hans Asperger, identificou um grupo de crianças com uma capacidade intelectual acima do normal, mas que tinham dificuldades em empatizar com as outras pessoas e fazer amigos. A lista de génios que foram diagnosticados com síndrome de Asperger ou os Aspies, como são chamados coloquialmente, é longa, incluindo Albert Einstein, Wittgenstein ou Thomas Jefferson. 

 

Com coragem, Greta transformou o que alguns consideram uma doença num "superpoder" para despertar a humanidade da sua letargia contra as alterações climáticas, e fez isso adoptando quatro estratégias básicas associadas à síndrome de Asperger.

 

Interesse e paixão obsessiva

 

Ter áreas de interesse muito específicas e dedicar-lhes muita energia faz com que sejam realmente brilhantes no que lhes interessa. Desde que tinha 11 anos Greta mostrou o seu interesse pela mudança do clima. Em 2018, com 15 anos, iniciou um movimento de greve escolar faltando às aulas todas as sextas-feiras para protestar contra a mudança climática em frente ao parlamento sueco, em Estocolmo. Esta atitude ficou conhecida como "Sextas para o Futuro" ("Fridays For Future"). Um ano depois, quase um milhão de estudantes aderiu ao movimento realizando protestos similares contra as alterações climáticas. O seu objectivo é consciencializar sobre a gravidade da crise climática e pressionar os parlamentares para que apoiem uma lei mais rigorosa contra as emissões de carbono. Este contágio social é uma das chaves do seu sucesso como líder.

 

Rotina e compromisso

 

Estabelecem rotinas que seguem rigorosamente. A própria Greta é um exemplo disso. Decidiu não viajar de avião para evitar as emissões de carbono causadas pelos aviões. No dia 13 de Novembro, partiu juntamente com o seu pai, de Virgínia, Estados Unidos, com destino a Madrid, a bordo de um catamarã tripulado por um casal de youtubers e o seu filho. Quando participou no Fórum Económico Mundial em Davos também foi de comboio com o seu pai. Este comportamento faz com que muitos jovens a vejam como uma referência e um modelo a seguir. Começou o seu activismo ambiental em casa, convencendo os seus pais a mudarem o seu estilo de vida, incluindo não viajar de avião, o que afectou negativamente a carreira da sua mãe como cantora de ópera.

 

Linguagem contundente

 

Expressam as suas ideias de forma categórica e repetitiva. Greta questiona os líderes mundiais sobre o "preço climático" que pagamos por pensarmos apenas no sucesso financeiro. Muitas vezes no seu discurso pergunta "Como ousam?" ("How dare you"). Recrimina a falta de acções contra as alterações climáticas de forma categórica dizendo "vocês roubaram os meus sonhos e a minha infância". Esta forma de expressar as suas ideias pode parecer arrogante e dar a impressão de que só estão preocupados com o seu próprio protagonismo. Mas esta é uma ideia totalmente equivocada. Várias vezes Greta assegura que o seu verdadeiro objectivo é lutar por uma causa que é muito maior do que ela mesma.

 

Comunicação directa

 

Concentram-se em conversas que estão directamente ligadas aos seus interesses. No dia 20 de Fevereiro de 2019, o New York Times descreveu Greta como "irónica, directa e às vezes sarcástica". Na Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima de 2018 (COP 24), referiu-se de forma irónica à forma como os líderes políticos enfatizam que "os jovens são a esperança", mas "são os líderes políticos que passaram 30 anos sem fazer nada". Greta pede que sejam tomadas medidas urgentes para resolver a crise climática quando afirma "que o tempo está a esgotar-se". 

 

Todo este protagonismo é difícil de ser assimilado para uma adolescente como Greta que não está habituada a ser o centro das atenções nem a falar em público. Ela própria refere-se à dificuldade desta mudança quando diz: "toda a minha vida eu fui a menina invisível lá no fundo, que não dizia nada. De um dia para o outro, as pessoas passaram a ouvir-me. É um contraste estranho. É difícil". Poucos podiam imaginar que uma jovem de apenas 16 anos poderia despertar a consciência de tanta gente a favor de uma acção global contra as alterações climáticas.

 

Alan Turing, o pai da inteligência artificial, foi também diagnosticado com síndrome de Asperger. No "biopic" O Jogo da Imitação, ele mostra como, "às vezes, as coisas mais surpreendentes vêm de quem menos esperávamos".

 

Professora da IE University

 

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