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Ricardo Cruz rcruz@europe.com 22 de Abril de 2005 às 13:59

Décimo terceiro, número um

Afinal, as empresas têm que eliminar «gorduras» e ineficiências internas, já que – há que dizê-lo e exigi-lo – têm que ser competitivas, até «se quiserem sobreviver».

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Pois é. Elas têm que ser cada vez mais competitivas. Produzir mais, e com maior produtividade. Subir na pirâmide do valor acrescentado. Aprender a viver em concorrência. Internacionalizar negócios. Saber estar num mercado global. Modernizar e investir em novas tecnologias. Captar e fixar saberes, talentos e competências. Acompanhar a «crista da onda» da inovação tecnológica. Ganhar e assegurar flexibilidade perante a constante mudança por que o mundo passa. Saber adaptar-se às circunstâncias e caprichos dos mercados. Libertar-se da paternal asa protectora do Estado.

(...)

Obviamente, a lista de «recados» poderia ser alongada até à náusea, enchendo o resto do espaço que me sobra. Não vale a pena. O mundo é como é – e, variantes de semântica à parte, tudo o que acima vai escrito é acertadíssimo. Mas o mesmo rol de recados tornou-se imanente ao universo de lugares comuns do discurso político sobre a realidade da economia portuguesa. É o Presidente que abençoa a abertura do congresso de negócios, e lá dá o recado. É o Primeiro-Ministro que, cortando a fita da nova fábrica, tece o mais rasgado elogio ao concreto exemplo de materialização do recado. É o telejornal que, exibindo fugitivo ministro a escapulir-se da viatura oficial, despeja, novamente, o recado.

O discurso da classe política sobre as empresas engrossa assim a enciclopédia de truísmos e tautologias atribuída a Monsieur Jacques de la Palisse (1470-1525), bem ao jeito do categórico e celebrérrimo «Hélas, s’il n’était pas mort, il ferait encore envie!» Aliás, rezam as crónicas que, sempre que convidado a jantar em casa de amigos, Monsieur de la Palisse fazia sempre questão de, ao anuir ao convite, previamente anunciar que faria questão em... comparecer pessoalmente.

Seguramente, não temerei que uma verdade deixe de o ser só porque repetidamente enunciada. Mas já me incomoda, todavia, que o recado seja por quem o profere (o governante) sistematicamente dirigido à casa alheia (as empresas, os empresários, os trabalhadores), sem obra que se mostre em casa própria. Como bem prega Frei Tomás, «Olha ao que eu digo, não ao que eu faço», quase parece que o país algum dia poderá ser competitivo e atractivos sem um Estado competitivo, moderno e racionalizado.

Imagine o caro leitor uma empresa com uma dezena de delegações e departamentos, dispersos por uma dada área metropolitana. E que em cada uma dessas unidades se presta um mesmo serviço aos clientes. Suponha agora que cada unidade possui no seu staff um departamento de pessoal próprio. Remédio santo e imediato: reestruturar, centralizando a função num único departamento que sirva todas as unidades, mantendo adstrita a cada uma das delegações o pessoal estritamente indispensável, e apenas e só se isso se justificar. Provavelmente, dez postos de trabalho assegurarão (mais) eficazmente o que antes era executado por trinta pessoas. O governante apreciará: afinal, as empresas têm que eliminar «gorduras» e ineficiências internas, já que - há que dizê-lo e exigi-lo - têm que ser competitivas, até «se quiserem sobreviver». Mas o leitor suponha agora o caso de uma universidade, com uma mesma dezena de faculdades e institutos dispersos por uma mesma área metropolitana, cada qual com a sua secçãozinha de pessoal, a sua contabilidadezinha, a sua tesouraria, o seu departamento de compras e economato, etc. etc.. Estamos, eu e o caro leitor, a pensar no mesmo, não?

Pois esse é o nosso Portugal Dual. De facto, existe um Portugal I e um Portugal II. O Portugal I albergará as empresas, as tais que têm que ser competitivas e criar riqueza. O Portugal II dá recados ao Portugal I, fica com as administrações públicas - que garantem um insubstituível «serviço de interesse público» -, e talvez com o passar das décadas o problema se resolva. O Portugal I é o dos jovens que, nas cidades, ou pagam rendas habitacionais exorbitantes, ou têm que penar até à velhice com a casa hipotecada ao banco. No Portugal II, as rendas estão congeladas, até porque o número de inquilinos que votam excede a população de senhorios. No Portugal I, há portagens. No outro, SCUT’s. No Portugal I, estão os que não terão direito a uma reforma decente. No outro Portugal, os que garantidamente receberão bem abonadas pensões. No Portugal I, o vínculo laboral é precário, e até se aceita que possa – e deva – sê-lo. Já no Portugal II, direitos adquiridos não podem ser subtraídos, e o direito ao emprego é garantido e vitalício, independentemente do desempenho ou da justificação do próprio posto de trabalho. No Portugal I, o comércio a retalho é livre e nenhum comerciante está livre de ter concorrentes na porta ao lado. No Portugal II, a venda de medicamentos é um privilégio de poucos. No primeiro, a contribuição autárquica é a doer, mesmo com passeios enlameados, falta de policiamento e lixo a esvoaçar. No segundo, é inferior ao recibo mensal do consumo de água, e o Estado não tem que pagar impostos sobre imóveis, até porque o défice não comporta. No Portugal I, o professor é respeitado, os alunos fazem exames e existem propinas. No Portugal II, «não pagamos», os professores são insultados e agredidos nas escolas, vamos para a greve se nos obrigarem a exames. No primeiro, os médicos não descansam enquanto a lista de espera não regride. No segundo, o senhor doutor já saiu para o consultório, agora só amanhã, a seguir ao almoço e nunca antes das três e meia. No Portugal I, a emigração é uma possibilidade, quando não uma realidade. No Portugal II, sobra sempre algum para umas férias no estrangeiro. No Portugal I, a água é escassa, tem um custo, e paga-se cara. No Portugal II, os agricultores ameaçam bloquear estradas e rumar de tractores até ao Terreiro do Paço acaso o Ministro ouse sequer pensar que a água do Alqueva não vai ser de borla.

Enquanto no Portugal I tudo se conquista a pulso e com sacrifício, no Portugal II usufrui-se de privilégios herdados, cobardemente consentidos e intocados pelo Estado, defendidos com unhas e dentes sempre que alguém ouse levantar questões. E, se o Portugal I só existe porque os portugueses podem ser tão bons quanto os outros, já o Portugal II põe a nu um poder político sem ousadia, destituído de qualquer genuína vontade reformadora, aterrorizado perante lóbis e interesses e condicionado por sondagens de popularidade.

Todavia, no Portugal I, todos votam. E no Portugal II também. Afinal, «todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei» – artigo décimo terceiro, número um, da Constituição da República Portuguesa, lei fundamental do país.

Senhor Engenheiro, dê lá uma atençãozinha a tudo isto, sim?

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